/A EDUCAÇÃO INCLUSIVA E O INDIVÍDUO SURDO

A EDUCAÇÃO INCLUSIVA E O INDIVÍDUO SURDO

Quando pensamos em inclusão, nos moldes que tem nos sido apresentada, logo vem à nossa mente questões como acessibilidade, respeito às diferenças, aceitação, preparo de profissionais, equipes multidisciplinares, integração entre educação e saúde, enfim, muitos conceitos que cercam a ideia inclusiva que no fundo quer dizer que o sujeito, que por algum motivo é excluído de situações do convívio comum, tem que passar a conviver no mesmo espaço que os tidos como normais para que tenha acesso ás mesmas vivências e experiências e assim seja aceito e tratado em pé de igualdade.

Essa questão é muito mais complexa e já existem muitas discussões a respeito. Quando falamos do indivíduo   surdo, num primeiro momento todas os requisitos ditos inclusivos se encaixam também, mas o processo de inclusão frente à surdez deve ser visto sob outro aspecto.

Retomando o senso comum, o   que se quer diante da dita inclusão é que o indivíduo tido como diferente tenha as mesmas chances, oportunidades, estímulos, vivências que os tidos como normais frente os padrões da sociedade e que dessa forma possam se desenvolver da forma   mais    parecida a esses padrões.

Se considerarmos que a principal diferença entre a pessoa surda e a considerada normal (que passo aqui a chamar de ouvinte) é o fato dela não ouvir, ter essa limitação sensorial que faz com que não desenvolva fala e consequentemente limite sua comunicação, privando-a dos mesmos estímulos que os ouvintes têm, faz-se necessário pensarmos também em como disponibilizar o mesmo acesso aos dois grupos de indivíduos: surdos e ouvintes (Marques, 2008).

No contexto escolar, muitos acreditam que a presença de um instrutor de Língua de Sinais na sala de aula regular seja adequada e   garanta ao aluno surdo essa igualdade de condições. Na prática isso não é suficiente.  Podemos aqui refletir da seguinte forma: Todo individuo surdo conhece e faz uso de língua de sinais?

Estatisticamente, a quantidade de surdos que é filha de pais ouvintes é muito grande.  Não tem contato com Língua de Sinais desde cedo e, portanto, precisam adquirir esta Língua. E adquirir não significa passar a compreende-la magicamente. Passa por um processo de aprendizagem.   Não basta nascer surdo para saber Língua de sinais. Não basta para o surdo ter acesso ao intérprete para compreender tudo que está ao seu redor. Isso não é real. Vemos diariamente crianças surdas chegando na Escola Especial sem língua adquirida. Muitas vezes chegam para frequentar séries avançadas do ensino fundamental, vindas do ensino regular, sem noção de mundo, de relacionamentos, sem conhecimentos básicos e não devido a dificuldades intelectuais como se pode pensar, mas porque não tiveram acesso a uma Língua pela qual pudessem desenvolver comunicação efetiva, adquirir conhecimento e se expressar (Lane, 1992)

Se pensarmos que essa afirmação é verdadeira ainda assim, faltará ao sujeito o direito de conviver com seus pares, partilhar conhecimentos, ampliar suas conexões de mundo e isso se garante na convivência que implica em relacionamentos, em laços, que são verdadeiros e fortes se conectados numa mesma língua. Neste aspecto, a efetiva inclusão do surdo, que oferece igualdade de condições necessita sim da educação especial. Do espaço onde o surdo possa ter acesso as mesmas informações, condições de ter relacionamentos que gerem laços afetivos e de confiança que levem a formação do indivíduo completo, em   todos os aspectos da mesma forma que acontece com qualquer indivíduo ouvinte. A possibilidade de igualdade passa pela diferença, pela necessidade de direito de igualdade.

A educação especial desta forma é encarada, não como simplesmente oferecer condições diferenciadas de ensino, mas oferecer possibilidades de aquisição de conhecimento e recursos de acesso ao mundo em pé de igualdade com o acesso que ouvintes tem. É uma questão de língua e não simplesmente de recursos pedagógicos e estratégias diferenciadas. Trata-se de reconhecer a língua de sinais como língua e desta forma encará-la como básica para o desenvolvimento humano. Sabemos que todo o processo de desenvolvimento passa pela aquisição da língua e desta forma também tem que acontecer com os surdos. Reconhecendo e encarando desta forma temos a Língua Brasileira de sinais (LIBRAS), como primeira língua do surdo e a língua portuguesa como sendo a segunda, que será adquirida na modalidade escrita. Essa concepção implica em uma visão totalmente diferenciada da forma de se ensinar o português para surdos. Mais uma vez reforça que o fato de apenas disponibilizar o intérprete no ambiente escolar, não garante a aprendizagem.

LÍNGUA DE SINAIS: CONDIÇÃO ESSENCIAL PARA O SURDO

Quando passamos pela história do surdo percorremos um longo caminho até chegarmos no ponto em que a língua de sinais passa a ser reconhecida como Língua em sua plenitude.

No Brasil o processo educacional do surdo segue o mesmo processo de percepção e construção verificado no âmbito mundial.

Inicia quando se acreditava que o Oralismo (abordagem na qual a fala é a principal forma  de comunicação a ser considerada) daria conta de fazer com que  o surdo se igualasse em condições ao sujeito ouvinte (Trenche, 1995).O estímulo auditivo,  a leitura orofacial, os treinos ritmados, as listas de palavras, o exaustivo trabalho terapêutico da fonoaudiologia, as proibições de utilizar as mãos para se comunicar marcaram um momento de certa forma traumático para os surdos, já que sua condição, limitação, cultura eram totalmente ignorados. Eram oferecidas as mesmas condições de aquisição de conhecimento pelas quais os ouvintes passavam.

A visão educativa passou por uma transição na qual o Bimodalismo (dois modos de comunicação sendo utilizados ao mesmo tempo, no caso a fala e os sinais) trazia os sinais acomodados à fala. Aqui a Comunicação Total ganhava força, apresentando o sinal em sintonia com a estrutura da língua Portuguesa (Moura 1993).  Começa a percepção de que sinalizar é importante, mas ainda não se consegue desvincular da fala.

Até que se chega ao reconhecimento da Língua de Sinais como língua, tendo estrutura própria e totalmente diferenciada da estrutura do Português. O Bilinguismo (duas línguas caminhando com suas próprias estruturas e características,   sendo a Língua de sinais a primeira língua do surdo e o Português, a segunda língua que será adquirida na modalidade escrita) começa a ser esboçado na valorização, estudo, aprofundamento   na ideia de ser a língua de Sinais a principal forma de expressar, adquirir conhecimentos, perceber o mundo (Taeschner, 1985,      Moura     1993).

Aqui a cultura do surdo começa a ser conhecida e valorizada, tirando –o da margem de deficiente para o lugar de diferente com plenas condições de assumir seu lugar no mundo, desde que tenham as condições adequadas. As ações educativas passam a ter em mente os recursos prioritariamente visuais pautados na melhor forma de acesso   para o surdo. As iniciativas bilíngues ganham força e reconhecimento. Mudam as formas de ensinar, principalmente a visão do ensino da escrita do Português ganha outro enfoque, priorizando primeiro a expressão em LIBRAS para depois buscar outros recursos gráficos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo em vista as ideias apresentadas podemos ver o surdo assumindo seu espaço e começando a mostrar que é capaz desde que lhe seja permitido utilizar sua língua e assim ter condições de igualdade real. É a inclusão sendo vista numa nova perspectiva, partindo do que num primeiro momento parece excluir, quando na verdade é a diferença que vai dar as condições necessárias para a verdadeira e efetiva inclusão.

POR: CLAUDIA REGINA RICCI