/A UTOPIA DA INCLUSÃO

A UTOPIA DA INCLUSÃO

Este Artigo Científico visa dissertar sobre a inclusão escolar dos portadores de necessidades especiais, no que concerne às perspectivas dos educadores para lidar com o aluno nessas condições, e no que é feito atualmente para que esta criança possa conviver e se desenvolver no ambiente educacional com maior naturalidade possível. Além disso, pretende-se discutir sobre a igualdade e diferenças, no sentido de conceituar estes dois aspectos que fazem parte do ambiente escolar.

O objetivo deste trabalho é retratar a vida escolar dos portadores de necessidades especiais (PNEEs), para explicitar a situação atual da inclusão nas unidades escolares, no sentido de entendermos quais os problemas que dificultam a presença dos deficientes no ensino regular, e quais as ações realizadas para solucioná-los ou mesmo amenizá-los. Para a elaboração deste artigo foram realizadas pesquisas bibliográficas assim como uma breve pesquisa de campo de observação em uma escola de educação infantil que possui uma quantidade razoável de PNEEs. Discutiremos primeiramente os conceitos de igualdade e diferença, decorrentes das diversidades óbvias que se apresentam nas escolas, contextualizaremos a inclusão traçando seu histórico, dissertaremos sobre as perspectivas de profissionais da educação a respeito da inserção de PNEEs nas escolas regulares e apontaremos ações para facilitar a transição de deficientes nas escolas.

Atualmente existe o aumento de programas de inclusão social, para portadores de necessidades especiais, no    que     concerne a questões profissionais e educacionais. No entanto, percebe- se uma resistência em aceitar esse indivíduo plenamente na sociedade, tanto por perspectivas preconceituosas quanto pelo fato de não saberem lidar com as limitações e proporcionar opções para que ele possa se desenvolver e desempenhar um papel efetivo socialmente.

O convívio no ambiente escolar é o princípio da inserção das crianças na sociedade, já que por meio dele elas aprenderão a compartilhar espaços, lidar com a imposição de limites e aprender atitudes de respeito para com o próximo. A Inclusão de crianças com necessidade especial é um novo aspecto da escola, que necessita de acolhimento de educadores e funcionários para agirem de maneira adequada, possibilitando que aquela criança tenha qualidade de vida similar a qualquer outro aluno.

No entanto, o fator de igualdade deve ser revisto, pois as pessoas são   caracterizadas por suas diferenças, não em uma denotação discriminatória, mas significando que cada indivíduo possui suas peculiaridades que devem ser respeitadas. Dessa maneira, este artigo visa discutir a tentativa de um tratamento igualitário em complemento à aceitação das diferenças.

Além disso, pretende- se abordar a perspectiva de professores com relação à inclusão escolar, já que muitos se consideram despreparados para realizar um trabalho pedagógico com estas crianças, pela falta de capacitação, insegurança ou mesmo por concepções subjetivas sobre o aluno com necessidade especial.

A sociedade capitalista e cada dia mais competitiva, requer indivíduos habilitados para travarem uma verdadeira batalha, no intuito de construírem seus projetos de vida. Resta-nos saber se a escola, micropartícula desta sociedade, está preparada para emancipar este aluno para se socializar plenamente, ou apenas o manterá a margem da integração deste meio humano.

IGUALDADE X DIFERENÇA

A escola é o lugar onde as pessoas buscam absorver e ampliar seus conhecimentos, buscando desenvolver habilidades que possam futuramente beneficiá- las profissionalmente e até mesmo pessoalmente. No entanto, talvez muitas destas aspirações não sejam alcançadas devido a pouca amplitude do ensino, que visa à homogeneização dos saberes em prol de uma igualdade distorcida que não existe.

As instituições de ensino sustentam um regime democrático, no qual defendem a igualdade de oportunidades no que concerne à aprendizagem. Partindo deste princípio, fomentam a perspectiva de que todos os alunos são iguais, e devemrecebero mesmo tratamento, desenvolvendo-se um método análogo de ensino. Entretanto, esta suposta igualdade é no mínimo utópica, já que os seres humanos possuem diferenças produzidas pela natureza (sexo, etnia) como sociais (cultura, crença, classe social) (Mantoan 2003, p.17), o que torna cada indivíduo único em suas peculiaridades. Estabelecer este conceito de inexistência de fatores desiguais pode acarretar a anulação do sujeito, escondendo suas características pessoais como explana Mantoan (2006, p. 17):

“Quando entendemos que não é a universalidade da espécie que define um sujeito, mas as suas peculiaridades, ligadas a sexo, etnia, origem, crenças, tratar as pessoas diferentemente pode enfatizar suas diferenças, assim como tratar igualmente os diferentes pode esconder as suas especificidades e excluí-las do mesmo modo; portanto ser gente é correr sempre o risco de ser diferente”.

De fato, a escola como um ambiente democrático deve proporcionar oportunidades de desenvolvimento intelectual a todos   os    alunos,    respeitando o tempo  de  aprendizagem de cada um, conforme a  concepção  de Rawls Ibidem mencionada por Mantoan (2006, p. 20)  “…  uma igualdade democrática, que combina o princípio da igualdade de oportunidades com o princípio da diferença”.

No entanto Mantoan disserta que propiciar as mesmas chances para alunos com limitações físicas, mentais e psicológicas, possui um aspecto de impedimento posterior por não garantir sua passagem por todos os níveis educacionais, fato que constatamos inicialmente no ensino infantil. Em algumas estruturas,  como  as   escolas  de nível infantil  administradas pela Prefeitura do Município de São Paulo, possuem salas com número de alunos reduzidos, quando   incluem    portadores de necessidades especiais, justamente para que o Professor possa atender aquela criança com maior prioridade. Salientamos que não existem garantias de que a solicitação para reduzir as turmas será atendida, sendo necessária insistência da coordenação nesse propósito. Os demais alunos são instigados a se relacionarem com ela, estabelecendo-se um processo de integração. Assim como qualquer outro nível de ensino, existe um prazo de permanência na instituição, que no caso de inclusão pode ser estendido, obedecendo- se critérios estabelecidos por um órgão competente. Além disso,  há projetos específicos para o atendimento destes discentes, e acompanhamento da coordenação

pedagógica para executá-los. A questão é que não existem garantias de que o próximo segmento oferecerá o mesmo atendimento criterioso do infantil, continuando com o planejamento realizado. O avanço deste aluno para a próxima etapa pode causar uma ruptura, forçando a adaptação do discente às condições padronizadas do ensino fundamental e médio, impossibilitando a manifestação de individualidades, e corroborando, segundo Mantoan (2006, p. 22), para perpetuar a seguinte premissa:

“A escola insiste em afirmar  que os alunos são diferentes quando se matriculam em  uma  série  escolar, mas o objetivo escolar, no final desse período letivo, é que eles se igualem em conhecimentos a  um  padrão  que é estabelecido para  aquela  série,  caso contrário serão excluídos por repetência ou passarão  a  freqüentar os grupos de reforço e de aceleração da aprendizagem e outros programas embrutecedores da inteligência”.

O Plano Nacional de Educação, aprovado pela Lei nº 10.172 de 9 de janeiro de 2001, cujo  capítulo 8 é inerente à Educação Especial, estabelece que as crianças poderão ser acomodadas em salas de aula comuns, especiais ou em escolas especiais. Considerando que a intencionalidade  da  inclusão   é   a integração e socialização do aluno deficiente com os demais, acreditamos que ele deve frequentar uma instituição de ensino comum, pois muitos pensam que a solução seria uma escola específica, o que na verdade causaria a segregação destes alunos. O ambiente escolar é um espaço de diversidades, e este convívio deve ser incentivado, para evitarmos futuramente atitudes preconceituosas de qualquer natureza, visto que todo ser humano quer ser respeitado integralmente, independente de fatores culturais, sociais e físicos, princípio que fomenta a idéia de Boa Ventura de Souza Santos (1999) “As pessoas querem ser iguais, mas querem respeitadas suas diferenças. Ou seja, querem participar, mas querem também que suas diferenças sejam reconhecidas e respeitadas”.

É claro que o suporte de uma Instituição para portadores de necessidades especiais é muito bem-vindo, mas apenas como um apoio adicional.

A questão não  é  recriminar a existência de instituições especiais, mas questionarmos as razões pelas quais as escolares regulares não possuem os recursos necessários e profissionais habilitados, que possibilitem a frequência de deficientes com maior tranquilidade.

É certo que o quadro atual do ensino não é satisfatório devido à dificuldade de se oferecer qualidade. Incluindo o fato de que não consegue atender alunos, vulgarmente        classificados como normais, ou  seja,  que não    apresentam    problemas de mobilidade e desempenho intelectual, cuja inserção de alunos nessas condições torna-se um entrave para o sistema de ensino, já que a intenção é padronizá-lo, ou como diria Matoan (2006, p. 23):

“É inegável que a inclusão coloca inda mais lenha na fogueira e que o problema escolar brasileiro é dos mais difíceis, diante do número de alunos que temos de atingir, das diferenças regionais, do conservadorismo das escolas, entre outros fatores”

As escolas especiais promovem um ambiente segregado, na medida em que força o convívio de   crianças com   limitações da mesma origem. Todos nós temos alguma(s) habilidade(s) reduzida(s), o que nos impulsiona à atitudes de superação, espelhados na capacidade de outros indivíduo em realizar determinado feito, o que não acontece em uma classe onde todos tem as mesmas dificuldades. Além disso, descaracteriza a cidadania, pois futuramente esse aluno sairá da escola e conviverá entre a sociedade, e a escola como micro partícula disso deve prepará- lo para inserir-se nessa atmosfera de diversidades, funcionando como “… o ambiente apropriado de formação do cidadão” (Mantoan 2006, p. 27).

PERSPECTIVAS SOBRE A INCLUSÃO

Existem muitas opiniões sobre a inclusão escolar, no entanto as mais pertinentes são emitidas pelas pessoas que participam ativamente deste assunto: os professores. Apesar de todas as dificuldades salientadas até o momento, ainda temos mais um entrave, a subjetividade daqueles que são responsáveis pela administração interna de uma instituição educacional, ou seja, gestores e coordenadores pedagógicos. A perspectiva desses profissionais, sobre a inclusão, influencia muito no desenvolvimento da criança deficiente, no   sentido de concatenarem o método de trabalho para obterem resultados efetivos. Observamos que algumas escolas não aceitam a inserção de deficientes, e até mesmo desestimulamos pais a matricularem o filho, insinuando que a criança terá muitos problemas para se adaptar e que o local não possui estrutura adequada para recebê- la. Isso demonstra o preconceito embutido em desinteresse e preguiça em fomentar um projeto que atenda alunos nessas condições, além de explicitar a atitude ilegal dos gestores, pois como apontamos anteriormente a entrada e permanência desse aluno são garantidas pela Resolução nº 2/2001, sentindo-se amparados pela desesperança e sentimento de rejeição dos pais para não serem denunciados.

Atentamos também para o posicionamento dos professores e caracterizamos algumas posturas:

Super Proteção – Não permitem que aluno tente fazer algo sozinho por julgá-lo incapaz, concepção definida como Modelo Clínico Terapêutico, por Carlos Skliar (1997), que salienta a patologia, focando nas dificuldades e não nas habilidades; Indiferença – Atitude esboçada por não haver como “escapar” da situação, que foi aceita meramente como uma ação burocrática já que é determinada por lei, acarretando a exclusão desse aluno  dentro da sala de aula, já que ele é acomodado em um canto, ação que extermina qualquer possibilidade de participação; Socialização – O professor que tem essa postura concebe a deficiência como uma limitação comum, considerando o aluno capaz de realizar qualquer atividade e respeitando a maneira pessoal dele de fazê-lo. Este ponto de vista é classificado de Modelo Socioantropológico (Skliar, 1997), pelo qual se salienta a capacidade do indivíduo em detrimento de sua limitação, considerando-a traço de sua identidade.

É evidente que não podemos simplesmente transferir a responsabilidade para os professores, cuja maioria possui uma longa jornada de trabalho, afinal sabemos que muitos, tanto na estrutura da Prefeitura quanto na do Estado, acumulam dois cargos, além dos horários de PEA (Projeto Especial de Ação), Hora- Atividade ou HTPC, (elaboração de atividades, provas, preenchimento de diário, fechamento de notas etc), permanecendo até 12 horas na escola. E apesar da carga horária extensa   e   atividades  externas à sala de aula, os educadores ainda são cobrados com  relação à sua  formação continuada, como se o tempo de trabalho não fosse suficiente. Esses aspectos colaboram para a baixa qualidade profissional do professor, e contribui para influenciar sua percepção sobre a inclusão, pois já é difícil lidar com todos esses fatores, somando-se a super lotação de turmas e os baixos salários, e conduzir o aprendizado de um aluno que demanda atenção, paciência e muitas vezes currículo diferenciado, torna-se algo insustentável para eles. Além disso, percebemos que a opinião destes profissionais nunca é considerada, já que as leis são formuladas por indivíduos alheios à situaçãoreal dasescolas, sujeitando os professores à imposições legais que não resolvem os problemas do cenário educacional.

Consideramos também questões relativas à insegurança profissional, situação na qual  o professor  não  é contra a inclusão, mas se sente despreparado a ministrar para discentes nessas condições, tanto pela falta de material adequado como por não saber conciliar a presença do aluno com os demais, fato que  é amplamente explicitado pelo relato de uma professora, citado por César Coll, Álvaro Marchesi e Jesus Palácios (2004, p. 31):

“Sempre vi com bons olhos a integração das crianças com alguma deficiência. Quando a escola teve de decidir, votei a favor. Achava justo que tais crianças estivessem na mesma escola junto com seus irmãos e seus vizinhos. No entanto, agora estou me dando conta de que ensinar a esses alunos é bastante complicado.(…) Não sei o que fazer  para que todos os alunos  acompanhem a matéria. Tenho dois programas, um para a maioria dos alunos e outro para os de integração, mas a preparação e a organização da aula supõem um grande esforço da minha parte. Já poderia haver livros e materiais adaptados para tais situações. Quando  entra  a  professora de apoio e trabalha na sala de aula com esse alunos ou os leva para outra classe, fico muito mais tranqüila. Inclusive acho que dessa forma vão aprender mais. De qualquer forma, acho que não seria bom que fossem para uma escola especial.”

Este depoimento nos permite visualizar a dimensão do problema.

 O esgotamento da professora, propiciado por não conseguir harmonizar a convivência entre todos os alunos é um fator alarmante, que nos faz salientar a falta de capacitação, de profissionais de apoio e de materiais.

A inclusão, incorporada às escolas sem o devido planejamento, culminou com a ausência de profissionais                capacitados. Anteciparam esse cenário antes  de considerarem se realmente poderia ser concretizado, expondo os educadores a uma inovação para qual não estavam preparados. A suposição de que eles procurarão, por conta própria, cursos que auxiliem essa condição é irreal, conforme mencionamos muitos não possuem tempo hábil e condições financeiras para isso, o que nos remete à responsabilidade das Políticas Públicas em formularem cursos para esse fim, pois “Quando existem programas de formação que dão mais confiança aos professores e há um apoio efetivo na escola, (…) as atitudes se modificam em direção positiva” (Coll, Marchesi, Palácios, p. 36).

A ausência de profissionais de apoioéoutropontoaserconsiderado. É claro que este fator  dependerá do tipo e grau da deficiência do aluno, um exemplo disso são os chamados cadeirantes, que não necessitam necessariamente de supervisão constante. No entanto, existem casos que precisam de maior atenção, como os alunos com deficiência mental e paralisia cerebral. Segundo Coll, Marchesi e Palácios o indivíduo com deficiência mental caracteriza-se por possuir um índice menor do que o normal de inteligência, o que acarreta dificuldades para aquisição de conhecimento. Possuem traços específicos de personalidade, identificados como familiaridade com rotina, demonstrando preferência por atividades repetitivas. Estas características pressupõem um acompanhamento diferenciado, devido ao ritmo extremamente  reduzido   com que consegue acompanhar o aprendizado, fato que exige a presença de um profissional de apoio, e consequentemente de metodologia específica. No que se refere aos portadores de Paralisia Cerebral (PPC), temos aspectos como limitação motora, que  pode ser originada de problema cerebral, espinhal, muscular ou ósseo-articulatorio (Coll, Marchesi, Palácios, 2004), e de linguagem. Esta necessidade especial requer não somente o auxílio de um profissional de apoio, mas de especialistas como  fisioterapeuta e o logopedista, sendo o primeiro responsável    pela     habilitação da  postura, da   manipulação   e do deslocamento e o segundo pelos aspectos motores da  fala. De acordo com Coll, Marchesi e Palácios, a educação do PPC é possível através da adaptação do ambiente e materiais utilizados, que dêem suporte às condições motoras do aluno, fazendo uso da tecnologia por meio de programas de computadores desenvolvidos para esse fim, ou mesmo adaptando manualmente os materiais e utensílios, conforme explana Coll, Marchesi e Palácios (2004, p. 232):

“É  preciso  (…)  promover   todo tipo de adaptações do material e dos utensílios para as atividades da vida diária e dos brinquedos. Pode-se pensar em adaptações simples, como cabos especiais para os lápis e os talheres, as superfícies antideslizantes para colocar os papéis, os jogos ou o prato, os atris, os velcros, etc. Deve-se contar também com adaptações mais complexas, que permitam acesso ao computador e, em alguns casos, com aparelhos eletrônicos para o controle do ambiente (como passadores de páginas e outros).”

Até o momento foram citadas deficiências que exigem suporte técnico e estratégico para a aprendizagem. Prosseguiremos dissertando sobre outras que requerem procedimentos diferentes, como a deficiência visual e auditiva. Os deficientes visuais têm problemas de mobilidade e acesso à informação escrita. A questão da mobilidade é desenvolvida progressivamente pelos pais, que orientados por especialistas nesse quesito, começam a orientar a criança nos primeiros anos de vida, desde o conhecimento do próprio corpo até a familiaridade com os cômodos da casa. Posteriormente este processo é estendido à escola, e educadores e demais funcionários são responsáveis pela orientação sobre o entorno e instalações internas. O hábito do reconhecimento de lugares através de treinamento condiciona o deficiente visual para futuramente identificar locais públicos, e poder transitar com maior autonomia, sistema aplicado gradativamente da infância à fase adulta. A etapa que demanda ainda maior atenção é o ensino da leitura e escrita, atualmente facilitada por avanços tecnológicos que disponibilizam recursos diversos. É claro que a escolha do recurso dependerá do grau da deficiência. Para os alunos que possuem visão muito reduzida pode-se utilizar “…o sistema em tinta, já que  existem (…) sistemas reprográficos, lupas, computadores para ampliar as letras e torná-las visíveis(…)” (Coll, Marchesi e Palácios, 2004, p.165), já os que apresentam a degeneração total da visão deve ser utilizado o Braille e potencializado os meios auditivos proporcionados por softwares especializados em reproduzir sonoramente as letras, números, e demais sinais gráficos das  teclas  dos computadores. É importante que os professores aprendam o código Braille, mesmo valendo-se de todas as provisões tecnológicas, pois é o meio de leitura e escrita mais comumente usado na vida social dos cegos, não somente para a identificação de letras e números, mas para desenvolver a sensibilidade tátil que possibilitem atuarem em situações como a identificações de cédulas de dinheiro, teclas de telefone, botões de elevador etc.

O ensino para os deficientes auditivos atenta-se para questões comunicativas, já que este aluno não tem condições de aprender elementos comunicativos e lingüísticos  espontaneamente. Assim como  a  deficiência   visual a auditiva possui níveis de classificação, podendo ser leve, média, séria ou profunda, sendo que a última indica a perda auditiva total. Existem muitas polêmicas relacionadas ao processo de ensino para crianças surdas, referentes à qual método de linguagem seria mais apropriado empregar. Coll, Marchesi e Palácios mencionam três tipos de sistemas de comunicação,  a Palavra Comentada criada por Cornett (1967) que objetiva a leitura de lábios complementada por sinais, o Bimodal no qual os sinais acompanham a ordem canônica da linguagem oral e por fim o Bilíngüe em que são utilizadas a linguagem de sinais e a oral. Acreditamos que o último sistema adequa-se melhor às intenções de integração do aluno, pois o objetivo é fazer com  possa se comunicar com os ouvintes, e ensinar apenas a língua de sinais irá segregá-lo a um grupo específico de indivíduos, assim como não ensiná- la seria excluir sua identidade,  pois a língua é um traço cultural. Desta maneira,   além  da    necessidade da capacitação em Libras o professor deve se atentar a alguns procedimentos para estabelecer uma comunicação com este aluno e entre os demais, exemplificados por Coll, Marchesi e Palácios no quadro abaixo:

Sugestões para favorecer a comunicação oral na sala de aula

  • Cuidar das condições acústicas e de visibilidade na classe
  • Utilizar equipamentos individuais de FM
  • Falar dirigindo o olhar à criança
  • Empregar todo tipo de meios de informação
  • Facilitar a compreensão por meio de mensagens escritas: lousa, transparências, etc.
  • Empenhar-se para que todos os alunos empreguem meio visuais de comunicação.

É importante que os educadores saibam o tipo de deficiência e a gravidade para procederem de maneira adequada. Segundo o relato de uma professora, um aluno com problemas de comportamento e relacionamento interpessoal foi classificado pela coordenação como hiper ativo, fazendo com que ela elaborasse atividades contínuas em um prazo curto de tempo, no intuito de nunca deixá-lo ocioso, no entanto o aluno era autista, e o método de ensino seria contrário ao empregado. Podemos perceber que existem muitas alternativas  para  melhorar e expandir o cenário da educação inclusiva, faltando apenas empenho em colocá-las em prática. A questão principal é tornar este processo mais do que uma integração. O deficiente não  esta  em   uma  instituição de ensino apenas para travar relacionamentos interpessoais e fazer com que os outros aprendam a lidar com essa convivência, mas também para aprender e receber o conhecimento necessário para seu desenvolvimento como indivíduo integrante de uma sociedade.

A revista Escola publicou um artigo em 2007, relatando a ação de algumas escolas em favor do aprendizado eficaz de crianças com necessidade especial. A primeira delas, a EMEF João XXIII, possui nove estudantes com deficiência visual entre a Educação Infantil e a de Jovens e Adultos, o suporte ao ensino destes alunos é garantido pela presença de uma professora pós-graduada em Educação Especial e com especialização em deficiência visual, que organiza reuniões de planejamento e também é responsável por implantar algumas inovações como um globo em alto relevo, pequenas placas com o nome de continentes e oceanos em braile e um barbante para delimitar a linha do Equador, além da elaboração de provas com antecedência para que possam ser traduzidas para o braile. A EMEF Vianna apostou na cooperação e empenho de todas as equipes, planejando aulas de apoio específicas. Na EM Cornélio Vaz de Melo, Rosely Lucas de Oliveira, da Associação de Surdos de Belo Horizonte, ensina Libras para alunos da educação infantil com acompanhamento efetivo da professora que também aprende junto com eles. No Colégio Estadual Neusa Domit é realizado um trabalho de ensino inclusivo com um aluno de 14 anos que possui uma deficiência neuromotora, causadora de movimentos involuntários que compromete a fala. Por isso além do apoio de  uma profissional, implantaram um computador adaptado para suprir sua limitação de realizar tarefas que necessitem escrever com lápis ou caneta, e a elaboração de um menu de livros para que ele possa apontar os que pretende ler, já que o problema de fala não permite que ele se comunique claramente com o responsável da biblioteca.

PERSPECTIVAS SOBRE A INCLUSÃO

É certo dizer que estamos longe de uma inclusão ideal, no entanto os fatos apontados até o momento demonstram sua evolução a cada dia que passa, principalmente devido ao trabalho de profissionais que realmente querem ver isso acontecer.

A elaboração e expansão de leis que garantem os direitos dos deficientes, referentes ao acesso à educação, permitem que as escolas tenham autonomia de ação podendo reivindicar  recursos,  materiais e profissionais, possibilitando o atendimento promissor de alunos com necessidade especial.

Concebemos a situação como algo que deve ser liderado pelos responsáveis de cada unidade escolar. O objetivo é formar uma tríade de participação, através da qual Coordenadores, Gestores e Docentes reúnam competências para administrar a inclusão.  Nesta proposição o   trabalho do Coordenador Pedagógico é estabelecer o número de alunos de cada turma que comportará alunos com deficiência, solicitando, se for o caso, a redução de alunos nestas turmas, objetivando ajudar o professor a manter um nível de qualidade satisfatório de ensino. É sua tarefa também entrevistar os pais para obter o maior número de informações sobre a criança, cujos            dados   serão transmitidos ao professor para que possa atuar adequadamente, pois ao conhecer as limitações e capacidades daquele aluno ele pode formular a metodologia correta para estimulá-lo. O Diretor deve acompanhar este processo de perto, administrando a aquisição de materiais e demais utensílios que atendam às necessidades dos alunos especiais. Já os Docentes precisam planejar junto com a coordenação a melhor forma de estimular o desenvolvimento do aluno, além de manter o Coordenador atualizado sobre os progressos e solicitar orientação quando surgirem dúvidas. Evidentemente nossa visão sobre o trabalho das equipes escolares parece muito otimista, no entanto sabemos que existem alguns entraves a serem superados. Exemplo disso é a concepção de que o aluno com necessidades especiais não consegue compreender a consequência de suas ações, o que impediria ensinar noções de limite e educá-lo como qualquer outra criança. Mas esta perspectiva só reforça a visão patológica das pessoas, tratando os deficientes como incapazes, alheios a qualquer regra de convívio social.

As adaptações  feitas     para favorecer  os portadores de necessidades especiais também facilitam a vida dos demais, prova disso é a utilização frequente de escadas rolantes, elevadores e guias rebaixadas por pessoas que não possuem problemas de mobilidade. A sociedade já evoluiu muito, garantindo o direito dos negros, índios, mulheres e agora chegou a hora de promovermos a cidadania dos deficientes, que como qualquer outra vida, independente da etnia ou gênero, não pode ser ignorada.

Paula de Cassia Vicente