/DIALOGANDO SOBRE COTIDIANO ESCOLAR: FRONTEIRAS NÃO TÃO SECRETAS

DIALOGANDO SOBRE COTIDIANO ESCOLAR: FRONTEIRAS NÃO TÃO SECRETAS

As reflexões ora apresentadas são inquietações alusivas às questões cotidianas vividas no chão da escola, sentidas dia a dia, tecidas e percebidas, á época sem intenção de denominá-las, apenas construir estratégias de ser e fazer, de modos certos ou incertos, mas de formas que considerassem os sujeitos humanos que constituíam o espaço escolar, para além das questões técnicas e tarefeiras, os sujeitos, suas vidas, seus valores, crenças, sentidos, significados e suas formas de relacionar são as vias fronteiriças que constroem cotidianos capazes de transformar.

Pensar no espaço escolar nos remete a pensar nas estruturas sistematizadas, impostas, e pré-determinadas, em equipamentos físicos sempre presentes de concretudes de cores frias, muitas vezes em tons cinza, um estereotipo da ordem, do padrão, do modelo, do instituído, que também compreendemos enquanto constituição de um contexto.

Quiçá as mudanças ocorram e a vida corra apesar das instituições, dos tons de cinzas, das sistematizações e das fragmentações, e sabedores somos da impermanência das instituições e dos cotidianos, fator este de tamanho benefício a vida dos sujeitos, dos viventes, a   permanência da mudança é o movimento para além da estagnação.

A complexidade sempre está presente, seja no velho ou no novo modelo de ser, de fazer e estar, mesmo que invisível, mas presente e latente.

A patologia da razão é a racionalização que encerra o real num sistema de ideias coerente, mas parcial e unilateral, e que não sabe que uma parte do real é irracionalizável, nem que a racionalidade tem por missão dialogar com o irracionalizável.

Ainda estamos cegos ao problema da complexidade (MORIN, 2015,15). O     cotidiano     presente nos espaços escolares são condicionantes complexos, são movimentos vivos que anunciam todas as formas de saberes e que muitas vezes em nome das ciências racionais são desconsiderados e este espaço que poderia ser uma via de compartilhamento de poli- conhecimentos, torna-se um lugar estático de aparente passagem, com características simplistas de transitoriedade.

O sentido não assume o significado do real espaço e a presença de ser não se consolida em sujeitos aprendentes. Os lugares, então, são tomados por sujeitos que não se assumem aprendentes, apenas reproduzem informações.

Pensemos, pois, enquanto educadores em cotidianos escolares fortalecidos por sujeitos conscientes em interface com o pensamento complexo, não sofrendo da cegueira errante, mas admitindo em suas práticas a riqueza das incertezas e saboreando a riqueza da formação.

O COTIDIANO INVISÍVEL: FRONTEIRAS NÃO TÃO SECRETAS

Á escola,  e  seu  cotidiano são espaços ampliados de movimentação complexa, por mais que queiramos impor o linearíssimo, novas formas de ser e fazer se instituem no lócus escolar e anunciam os cotidianos invisíveis e as fronteiras não são tão secretas, assim. São apelos que correm  por diversas vias e que se não são levados em consideração são traduzidos como patológicos e vistos como desordem.

Mesmo sentindo os sinais ditos das patologias e traduzidos como indisciplina, comportamentos inadequados, falta                de compromissos, entre outros, os reprodutores do sistema, negam- se a investigarem as causas e preferem adotar a invisibilidade aos sujeitos que assim se encontram

Nas situações de invisibilidades ignoramos:

os conjuntos complexos, as interações e   retroações   entre partes e todo as entidades multidimensionais, os problemas essenciais(MORIN,2015,13).

Quando nos referimos aos sujeitos que constituem o espaço escolar é fundamental que entendamos que nosso recorte se dá aos docentes, discentes e equipe gestora, não em demérito aos demais segmentos. Para além da limitação também consideramos que não são apenas invisíveis os discentes, como se só a eles se dirigisse a incompreensão do sistema estruturado, mas a todos os sujeitos que de uma forma outra possuem um olhar, um fazer, umas práxis que caminha para além do paradigma linear e que mesmo sem denominar, compreendem que novas concepções emergem.

Como poderíamos então tornar visíveis os sujeitos que talvez sintam nas fronteiras outras possibilidades de caminhos a não ser os propostos ou impostos?

Reconhecer os princípios da complexidade é um excelente movimento que possibilitaria trilhar esta via, e, este é um exercício interessante para nós educadores:

PRINCÍPIOS DA COMPLEXIDADE:

  1. Princípio Sistêmico ou Organizacional

Que liga o conhecimento das partes ao conhecimento do todo

A ideia sistêmica, oposta à ideia reducionista, é que “o todo é mais do que a soma das partes”.

  1. Princípio Holográfico

Põe em evidência este aparente paradoxo das organizações complexas, em que não apenas a parte está no todo, como o todo está inscrito na parte. Assim, cada célula é uma parte de um todo – o organismo global –, mas também o todo está na

parte: a totalidade do patrimônio genético está presente em cada célula individual; a sociedade está presente em cada indivíduo, enquanto todo, através de sua linguagem, sua cultura, suas normas.

  1. Princípio do circuito retroativo rompe com o princípio da causalidade linear: a causa age sobre o efeito, e o efeito age sobre a causa, como no sistema de aquecimento, em que o termostato regula o andamento do aquecedor. Esse mecanismo de regulação permite, aqui, a autonomia térmica de um apartamento em relação ao frio externo.
  2. Princípio do circuito recursivo ultrapassa a noção de regulação com as de autoprodução e auto-organização. É um circuito gerador em que os produtos e os efeitos são, eles mesmos, produtores e causadores daquilo que os produz.
  3. Princípio da autonomia/ dependência (auto-organização).

Os seres vivos são seres auto-organizações, que não param de se autoproduzirem, por isso mesmo, despendem energia para manter sua autonomia. Como têm necessidade de retirar energia, informação e organização de seu meio ambiente, sua autonomia é inseparável dessa dependência; é por isso que precisam ser concebidos como seres autoecoorganizadores.

  1. Princípio dialógico

Une dois princípios ou noções que deviam excluir-se reciprocamente, mas são indissociáveis em uma mesma realidade.

  1. Princípio da reintrodução do conhecimento em todo conhecimento.

Opera a restauração do sujeito e revela o problema cognitivo central: da percepção à teoria científica, todo conhecimento é uma reconstrução/tradução feita por uma mente/cérebro, em uma cultura e época determinadas.

A percepção destes operadores nos permite um olhar diferenciado sobre a realidade no chão da escola, nos religa as coisas humanas, promovendo a junção com os princípios e finalidades da educação, que são aspectos para além das formalidades, e, portanto, que devem caminhar em busca da reorganização humana e sua qualidade planetária.

 O cotidiano escolar é o movimento propulsor e cíclico do fazer real na escola, não há currículos e projetos que se materializem sem o alinhamento aos sujeitos que permeiam o espaço escolar.

Os recursos da dialeticidade, da recursividade e do princípio monogramático, são operadores iniciais, capazes de auxiliar nos diagnósticos, na seleção crítica de conteúdo, nas múltiplas possibilidades avaliativas, e em todo processo formativo, considerando sempre a força presente no cotidiano, nas relações fronteiriças tecidas não tão secretamente pelos sujeitos nos espaços escolares.

Na teia complexa da atualidade, das novas demandas, de  ressignificações   múltiplas no campo educacional, o conhecimento real é uma das vias que emerge para que possamos ter qualidade de vida, para que a vida humana se torne de fato mais humana, e, neste contexto a escola assume papel de fundamental relevância, é nela que ocorrem as possibilidades de transformações, é nela que apesar dos antagonismos e graças a eles que se reproduzem as sistematizações, mas que também surgem os movimentos sistêmicos- críticos-reflexivos que libertam os sujeitos.

A complexidade é mais uma ferramenta de junção que podemos nos valer em contribuição para compreender que os cotidianos são carregados de  crenças, valores, lendas pessoais, contextos históricos, sociais, políticos, desejos, sonhos, histórias de gentes diferentes, que  mesmo  sem saber buscam  um  espaço com causa- efeito que se  revele em sentimento de pertença, de acolhimento e de empoderamento nesta via chamada escola.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O cotidiano é fator relevante no espaço escola, nele se constroem as relações objetivas e subjetivas de todos os sujeitos que constituem o chão da escola.

Este é um fato que ninguém ignora, mas que também não conhece ou reconhece lhe dando a devida importância, enquanto analise efetiva de seus efeitos nas esferas da escola.

Seja no currículo, seja nos projetos, nas intenções registradas, até nos combinados, o tal cotidiano fica quase invisível, e somente é sentido, quando se revela e se traduz em seus significados.

O que para os sujeitos tem sentido? Que significações possuem das práticas escolares?

Sem a analise critica reflexiva a estas questões vivemos no limite, e os cotidianos vivem na quase invisibilidade, isso não quer dizer que não sejam sentidos, ou que não existam, apenas que não são reconhecidos, e as consequências disso são traduzidas na fragmentação do conhecimento que muitas vezes nem se efetivam enquanto saberes, ficam na reprodução mecânica e descontextualizada.

Que formação estamos propondo? Que sujeitos estamos formando? A serviço de quem e para quem formamos?

São velhas questões, mas que sempre estarão presentes na seara educacional, enquanto não consolidarmos quem de fato consideramos em formação para vida sistêmica, em movimento, onde as ações possibilitem ultrapassar os limites rumo a fronteiras.

Por meio da complexidade podemos vislumbrar multidimensões, que nascem das micro dimensões, do eco formação, dos cotidianos não invisíveis promovidos por espaços escolares aprendentes, emancipatórios e fronteiriços.

REFERÊNCIAS

GUMBRECHT, H. U. Produção de presença: o que o sentido não consegue transmitir. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2010.

MORIN, E. Introdução ao pensamento complexo. 5ª edição. Porto Alegre: Sulina, 2015.

MORIN, E.A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 22ª edição. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil, 2015.

MORIN, E. Ensinar a viver: manifesto para mudar a educação. Porto Alegre: Sulina, 2015.

Por: Fatima Ramalho Lefone