/ENSINO TÉCNICO INTEGRADO AO ENSINO MÉDIO: UMA VISÃO BASEADA EM PROPOSTA DE VALOR

ENSINO TÉCNICO INTEGRADO AO ENSINO MÉDIO: UMA VISÃO BASEADA EM PROPOSTA DE VALOR

O ETIM – Ensino Técnico Profissionalizante Integrado ao Ensino Médio estabelecido através do parecer CNE/CEB 39/2004 – Aplicação do Decreto nº 5.154/2004, o qual firma: Assim, na forma integrada,   uma   vez  que atendidas as finalidades e diretrizes,  de  forma  complementar e articulada, conforme o planejamento pedagógico do estabelecimento de ensino será oferecida simultaneamente e ao longo do Ensino  Médio,  a Educação Profissional Técnica de Nível Médio, cumprindo todas as finalidades e diretrizes definidas para esta, conforme as exigências dos perfis profissionais de conclusão traçados pelas próprias escolas e em obediência às Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, bem como para a Educação Profissional Técnica de nível Médio.

O ensino-aprendizagem nesta modalidade tem como objetivo geral a integração em todos os sentidos entre a Formação Profissional (Ensino Técnico) e a Educação Geral  (Ensino  Médio),  de modo aperfeiçoar o tempo e os esforços de professores e alunos  e  os recursos disponíveis, na    mesma    direção  de trabalhar as competências de formação geral, com as de formação profissional de  tal  modo  que   elas se complementem e se inter-relacionem, nas quais as habilidades, conhecimentos e valores desenvolvidos nos componentes curriculares referentes à formação geral sejam contextualizados e exercitados nas práticas de formação profissional.

O mercado de trabalho brasileiro sente a falta de trabalhadores qualificados. Nesse sentido, o ensino técnico profissionalizante é o caminho mais curto para o emprego. O Ensino técnico integrado ao ensino médio é um fator favorável para a educação, e tem como objetivo específico a preparação dos discentes, de maneira precoce, para o mercado de trabalho. Ele visa atender aos anseios do mercado, que busca mão de obra qualificada para as novas oportunidades de trabalho que a tecnologia e a comunicação proporcionam.

Esse artigo científico tem como justificativa utilizar o Quadro de Modelo de Negócios, para evidenciar a proposta de valor dessa modalidade de ensino, ou seja, como o ETIM, através da qualificação profissional e inserção imediata dos jovens no mercado de trabalho, ajudará a suprir a necessidade de mão de obra técnica qualificada nas empresas.

Mostra, através de uma visão mercadológica, como a modalidade de ensino técnico integrado ao ensino médio poderá amenizar   o   problema de falta de mão de obra qualificada, enfatizando os pontos necessários para construir de forma positiva a integração entre escola, alunos e o mercado de trabalho.

REFERENCIAL TEÓRICO

De acordo com Lucília Machado ela expõe que não é mais aceitável, por exemplo, a afirmação de que conteúdos considerados gerais não seriam profissionalizantes; isto porque uma sólida formação geral   tem sido reconhecida não só como um requisito de qualificação profissional no atual mundo do trabalho, como, talvez, o mais importante (MACHADO, 2009, p. 3).

A mesma autora argumenta sobre a importância da educação básica na formação profissional “A educação básica tem o importante papel de fazer com   que o aluno adquira os conhecimentos de base relativos à cultura, à sociedade, às ciências, às ideias, que são indispensáveis a cada um, qualquer que seja sua profissão” (MACHADO, 2009, p. 5).

Ainda, Lucília Machado comenta sobre as mudanças no ensino profissionalizante “A educação profissional tem, nos conhecimentos tecnológicos, seu foco fundamental; conteúdos que não se confundem com saberes empíricos, mas que guardam com eles relação; referências obrigatórias ao exercício de atividades técnicas e de trabalho” (MACHADO, 2009, p.5). Lucie Tanguy menciona que “Os conhecimentos tecnológicos também são, hoje, reconhecidos como socialmente necessários a todos. Seu ensino, à diferença do ensino geral, é orientado predominantemente para a atividade de trabalho ou para a explicação dos objetos técnicos, sua estrutura e fabricação” (TANGUY, 1989, p. 62).

Portanto é fundamental uma boa formação básica no nível médio integrado ao ensino técnico, para que os estudantes se tornem profissionais qualificados para o mercado, independente da sua área de atuação.

Carlos Artexes Simões complementa a ideia mostrando a importância do estudo técnico como fator de transformação social na vida do aluno:

O ensino técnico articulado com o ensino médio, preferencialmente integrado, representa para a juventude uma possibilidade que não só colabora na sua questão da sobrevivência econômica e inserção social, como também uma proposta educacional, que na integração de campos do saber, torna- se fundamental para os jovens  na  perspectiva  de seu desenvolvimento pessoal e na transformação da realidade social que está inserido (SIMÕES, 2007, p. 82 e 84).

Um fator de extrema importância para o mercado de trabalho, e relacionado  diretamente a formação de jovens profissionais é apontado por Tafner “A queda na taxa de fecundidade a partir dos anos 1980 fez com que, nos últimos tempos, a taxa de crescimento da População em Idade Ativa entrasse em declínio, tendência esta que deve se tornar mais intensa nos próximos anos” (TAFNER, 2006, p. 2).

Ramon de Oliveira exalta o ensino como ferramenta modificadora da sociedade As ações do Ministério do Trabalho atingiram várias instâncias sociais e políticas de forma a garantir, pelo processo de formação para o trabalho, o duplo objetivo de conquistar uma economia mais competitiva e promover novas estratégias para  (…) vislumbrarem a possibilidade de permanência ou inserção no mercado de trabalho, o que, consequentemente, provocaria um desenvolvimento social com maior equidade (informativo eletrônico).

QUADRO DE MODELO DE NEGÓCIOS

Esse trabalho utiliza o Business Model Canvaspara elaborar o modelo de negócios, com o objetivo de mostrar de maneira mais   clara a proposta do ETIM – Ensino Técnico Integrado ao Ensino Médio, uma inovação oferecida pelo Centro Paula Souza às suas escolas de nível médio. Para apurar possíveis incoerências, sugere-se a execução da validação do modelo. Isso, na prática, implica em desenvolver junto aos stakeholders uma pesquisa para propor o negócio.  Com as respostas procede-se o acerto do modelo de negócios. Segue o quadro abaixo:

PROPOSTA DE VALOR

A proposta de valor baseia-se na formação de alunos no ensino médio de maneira  integrada com o ensino técnico profissionalizante, e inseri-lo de maneira precoce (a partir de 14 anos como aprendiz, ou 16 anos como funcionário ou estagiário, desde que não exerça funções em condições perigosas  ou insalubres) , qualificada e imediata  no mercado de trabalho, como colaborador de uma empresa ou empreendedor. Assim, possibilita uma modificação na realidade do mercado de trabalho atual e na vida do aluno, que geralmente vem de classes sociais menos favorecidas.

Essa proposta vem ao encontro da necessidade de nossos clientes que é a falta de mão de obra técnica nos   diversos   setores  da  economia,  inclusão de   jovens   qualificados e preparados para as novas tecnologias na força de trabalho e maior qualificação profissional, atendendo  diretamente as    necessidades de conhecimento técnico nas empresas, qualificação profissional, inserção de jovens no mercado de trabalho, aumento da população economicamente ativa e maior concorrência para as oportunidades de emprego.

 RELACIONAMENTO COM OS CLIENTES

O mercado de trabalho é o nosso cliente e ele espera que a escola ofereça alunos preparados para exercer as funções profissionais relacionadas à formação técnica. Nesse sentido, muitas empresas buscam os alunos diretamente na escola, oferecendo estágios e empregos. Outra forma de relacionamento é quando o próprio aluno sai a campo em busca das oportunidades. Nesse caso as vagas são oferecidas através de agências de estágios e empregos, jornais, internet. Normalmente o aluno com a formação técnica possui maiores chances de conseguir a vaga. Existe também a possibilidade de a escola estabelecer a iniciativa de contato com as empresas, visando oferecer seus alunos ao mercado. Normalmente essa iniciativa acontece através de uma visita presencial do diretor da escola, coordenadores de curso e assistente técnico administrativo às organizações, buscando estabelecer um termo de compromisso, onde a empresas se prontificam oferecer estágios e oportunidades de emprego para a escola, e em contrapartida a escola se compromete oferecer profissionais qualificados para exercer as funções técnicas. E por último, através de uma iniciativa empreendedora, o aluno poderá abrir o seu próprio negócio.

SEGMENTO DE CLIENTES

Criamos valor para o mercado de trabalho de modo geral. Nosso segmento são pequenas e médias empresas, localizadas principalmente no Estado de São Paulo, que buscam mão de obra     jovem, técnica e qualificada para as diferentes funções que a formação profissional possibilita. Também podemos considerar como segmento   de   clientes as possibilidades que o mercado empreendedor oferece. Especificamente será oferecido mão de obra técnica qualificada nos diferentes segmentos da     indústria, gestão e   negócios, serviços e agropecuária.  Essa mão de   obra poderá ser utilizada tanto pelas empresas, contratando os alunos como estagiários ou colaboradores, como também para o empreendedorismo, possibilitando ao aluno abrir seu próprio negócio.

CANAIS

O contato entre a empresa e o aluno poderá ser estabelecido de quatro formas diferentes:

  • Através da iniciativa da empresa, que busca a escola procurando alunos para exercer as funções técnicas oferecidas. Esse contato normalmente é feito presencialmente, por telefone ou e-mail.
  • Através das agências de estágio e empregos que faz a ligação entre a empresa e as escolas.
  • Através da iniciativa da escola, que buscam as empresas oferecendo possibilidade de candidatos à estágios. Normalmente esse contato é feito de maneira presencial.

  • Através da iniciativa do aluno que sai no mercado buscando as melhores oportunidades, seja como colaborador ou como empreendedor.

Nossos clientes preferem captar os alunos diretamente em uma escola que possua todas as condições para atender as oportunidades de emprego. Além disso, eles podem oferecer as vagas através de agências de estágios e empregos, jornais internet etc., e assim, conseguir um maior número de candidatos de diferentes escolas técnicas.

FONTES DE RECEITA

Como o ensino é gratuito, nosso cliente espera não pagar nada. Em alguns casos as empresas fazem uma contribuição para a APM (Associação de Pais e Mestres) da escola, em espécie ou em materiais e equipamentos necessários para desenvolver os cursos, porém essa   contribuição é irrisória em relação às necessidades financeiras.

Na verdade, o serviço é pago através dos impostos e taxas que o governo arrecada dos contribuintes, que são nossos clientes e alunos.

ATIVIDADES CHAVES

Dentre as atividades chaves a mais importante junto a nossa proposta de valor é proporcionar ensino de qualidade, para que o aluno formado atenda a demanda do mercado, e com isso consiga um lugar qualificado na força de trabalho, além de possibilitar o ingresso nas melhores faculdades.

Em relação aos canais temos como principais atividades chaves o oferecimento de estágios e empregos, através de convênios com as empresas inseridas na comunidade em que a escola atua, além de estimular o aluno buscar a sua inserção no mercado de trabalho, através da capacitação profissional oferecida. Também podemos considerar a busca por faculdades de qualidade, onde seja viável o ingresso do aluno em um curso de graduação.

A atividade chave mais presente   junto ao   segmento   de clientes é aprimorar o relacionamento com as empresas, ouvindo-as em relação às necessidades que   elas   possuem sobre a capacitação dos profissionais que irão ingressar nas empresas.

Apesar de se tratar de uma escola pública, podemos considerar como atividade chave da fonte de receitas a colaboração financeira dos alunos e empresas para a APM (Associação de Pais e Mestres), assim a escola gera uma receita extra para proporcionar melhores condições de ensino aos alunos e professores.

RECURSOS CHAVE

Nesta proposta percebemos que a maioria dos recursos chaves estão ligados à proposta de valor.  A princípio para desenvolvermos o valor esperado são necessários uma equipe de gestão escolar atuante e preocupada com as aspirações que o mercado possui. Temos que ter também um corpo docente capacitado e preparado para a realidade que o mercado de trabalho exige e com conhecimento sobre a exigência de ensino dos principais vestibulares brasileiros. Junto a isso, um material didático condizente com as propostas, e alunos preparados e motivados a encarar os desafios que estarão por vir.

Em relação as fontes de receita, apesar de se tratar de uma escola pública, os recursos chaves   estão   ligados ao repasse de verba financeira que o Centro Paula Souza dá as escolas vinculadas à instituição, e a infraestrutura escolar adequada de acordo com os cursos oferecidos. Essa infraestrutura também é responsabilidade do Centro Paula Souza.

 PARCEIROS CHAVE

Temos  como principais parceiros do ETIM as instituições públicas, privadas e ONGs, que oferecem e fiscalizam a inserção dos alunos no mercado de trabalho, através de programas de estágio, trainee ou aprendiz. Essas empresas fazem a ligação do nosso “segmento de clientes” (mercado de trabalho) com o “produto” que a escola oferece (alunos). Podemos considerar o SEBRAE como outro parceiro, no momento em que o nosso aluno prefere, ao invés de um emprego formal, buscar uma colocação no mercado como empreendedor, abrindo seu próprio negócio. Também as faculdades que oferecem bolsas de estudos e oportunidades diferenciadas aos alunos, constituem em uma parceria importante para construir a proposta de valor.

Nesta proposta consideramos como fornecedores as instituições ou empresas que colaboram na entrada, permanência e capacitação dos alunos dentro da proposta de valor. Nesse sentido o Governo do Estado de São Paulo é um dos principais fornecedores, subsidiando os recursos financeiros e materiais necessários para o melhor desempenho dos cursos na escola. Os recursos- Chaves estão ligados à administração da verba que o Governo do Estado de São Paulo destina ao Centro Paula Souza.

ESTRUTURA DE CUSTOS

Por se tratar de uma prestação de serviço pública, os custos do nosso modelo de negócios são pagos pelo Centro Paula Souza, através de subsídios fornecidos pelo Governo de Estado de São Paulo, junto a Secretaria de Tecnologia e Desenvolvimento. Dentre todos os custos inerentes ao modelo de negócio podemos destacar os salários dos professores e funcionários das escolas; a manutenção e compra de equipamentos e materiais para a prática pedagógica; manutenção, adequação e reforma da infraestrutura escolar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 A Educação é uma importante ferramenta para as mudanças sociais e econômicas que uma sociedade deseja. Sem proporcionar uma Educação eficiente, dificilmente verificamos transformações significativas nos padrões socioeconômicos de um país. A proposta do ETIM – Ensino Técnico integrado ao Ensino Médio–foi uma inovação oferecida pelo Centro Paula Souza, na busca de inserir os jovens na população economicamente ativa de maneira qualificada. Essa inovação busca atender uma demanda exigida pelo mercado de trabalho, que tem uma carência de profissionais técnicos preparados para as novas tecnologias que as profissões exigem. Inserindo os alunos no mercado, além de aumentar a oferta de mão de obra qualificada para as empresas, coloca mais jovens na força de trabalho.

Além disso, como se trata de uma instituição pública, atendendo alunos das classes sociais menos favorecidas, essa inclusão poderá ser um fator diferencial na vida desses jovens e de suas famílias. Como salário que ele irá ganhar, ele poderá financiar a continuidade de seus estudos em uma faculdade, ajudar sua família a ter uma condição financeira melhor e   contribuir para uma melhoria das condições econômicas do microambiente em que está inserido.

Em marketing avaliamos todo tipo de oferta como um produto. Lugares, ideias, serviços educacionais poderão ser vistos através de princípios mercadológicos. Trazer essa proposta pedagógica através do Quadro de Modelo de Negócios busca-se evidenciar de maneira mais clara o que é oferecido, qual a proposta de valor apresentada, ou seja, o ensino técnico integrado ao ensino médio como ferramenta de transformação da sociedade como um todo. A quem está destinado, neste caso o mercado de trabalho. Quais são os principais recursos, atividades e parcerias necessárias para termos sucesso na nossa proposta de valor e os principais custos e receitas. Essa visão sistêmica que o quadro de modelo de negócios nos proporciona em relação ao ETIM facilita seu entendimento e gerenciamento, possibilita que os gestores tomem iniciativas efetivas em relação aos temas evidenciados e permite mudanças ágeis decorrentes da evolução tecnológica, do mercado de trabalho e do processo de ensino-aprendizagem.