/LÍNGUA PORTUGUESA: UNIDADE OU DINAMISMO?

LÍNGUA PORTUGUESA: UNIDADE OU DINAMISMO?

INTRODUÇÃO

A língua é uma atividade condicionada ao espírito humano. O homem é o único ser que modifica a natureza através de seu trabalho e que, ao recriar o mundo, imprime neste uma marca cultural. Essa capacidade de transformação sobre o mundo e sobre si acontece através da linguagem, produtora e produto de uma determinada cultura, característica exclusivamente humana. Ao transcender o que é natural, o homem se manifesta culturalmente produzindo um sistema de comunicação. E toda reorganização de experiências é resultado de uma linguagem. Para Silva Neto (1950), a língua é um produto social, pois as suas diferenciações coincidem com tradições, experiências e valores comuns.

Se os fatos sociais e as criações intelectuais evoluem, com o fenômeno da linguagem não pode acontecer diferente. A língua acompanha o dinamismo da existência humana e de suas socializações. Considerando as perpétuas mudanças experimentadas pela língua, não há como determinarmos uma data exata sobre a origem da língua portuguesa. Para compreender melhor algumas mudanças pelas quais o português passou no Brasil, pesquisadores delimitam seus estudos por periodizações, utilizando-se de marcos na história que auxiliam nessa delimitação.

No final do século XV, a expansão marítima europeia tinha uma política de valorização das línguas nacionais, já que estas funcionavam como instrumento de dominação sobre os povos ultramarinos. Ao chegar ao Brasil, a língua portuguesa entrou em contato com povos que falam outras línguas. Antes do descobrimento, a população indígena que vivia no Brasil falava cerca de 340 línguas pertencentes a troncos linguísticos muito diferentes entre si. O tráfico de escravos, que termina oficialmente em 1850, trouxe ao País milhões de africanos falantes de línguas pertencentes ao tronco niger-congo. Neste início do período colonial, a ambientação linguística brasileira era bem diversificada e essa pluralidade linguística- cultural fortaleceu as bases da construção da identidade do português brasileiro.

A história da implantação do português no Brasil foi uma história de multilinguíssimo. No entanto, a homogeneidade da língua portuguesa era apregoada pelos jesuítas e pelos colonizadores, já que era a língua compartilhada com a corte, a língua imposta aos índios e aos escravos.  A partir do século XIX, as elites do país, preocupadas em “branquear” a população brasileira e em substituir a mão de obra escrava, começaram a lançar projetos de colonização destinados a atrair imigrantes europeus e asiáticos. Diante disso fica evidente que, desde 1500 até o final do Império, o Brasil foi um espaço multilíngue e um enorme laboratório linguístico.

Este artigo não tem a pretensão de abordar todos os períodos que marcaram as alterações pelas quais a língua portuguesa passou, mas tem por objetivo a problematização de seus métodos de ensino. A homogeneidade da língua foi inculcada através do ensino da língua de forma sistematizada, dentro do padrão da normal culta. No entanto, ainda que o Português do Brasil seja considerado o mesmo que o Português Europeu, eles diferenciam-se por sua historicidade e por experimentarem relações diversas, com discursividades distintas.

Pode-se concluir que é de suma importância ter um sistema de ensino preparado para receber alunos com diferentes tipos de deficiência intelectual, adequando o ambiente para recebê-los e preparando profissionais que saibam  atendê-los em suas especificidades e habilidades, que saibam que estes alunos, assim como qualquer outro, conseguem aprender e devem interagir com o mundo para poder se desenvolver academicamente e socialmente, isto é, se tornarem cidadãos ativos e autônomos.

Possibilitar a inclusão social requer reflexão contínua sobre os processos de ensino e aprendizagem, exige criar estratégias de ensino que sejam realmente potencializadoras de habilidades e que considerem as especificidades de cada aluno, seja ele deficiente intelectual ou não. E, para isso, é necessário alterar aspectos do currículo escolar, do planejamento docente, da estrutura física e de materiais didáticos da escola, da formação contínua dos docentes, das formas de avaliação, do apoio de toda equipe da escola, dos familiares e do governo etc.

Contudo, o professor se sentirá sempre o grande responsável pela inclusão dos estudantes com deficiência intelectual e, portanto, cabe a ele lutar, junto com toda a equipe escolar, por uma educação de qualidade, por uma educação realmente inclusiva.

JUSTIFICATIVA

A língua muda no espaço e com o tempo. Existem as mudanças que ocorrem ao longo do tempo, as chamadas “mudanças diacrônicas” e as variações que se dão conforme o espaço, as chamadas variações diatópicas. A língua é um conjunto de variedades, sejam estas geográficas, sejam de gênero, socioeconômicas, etárias, de nível de instrução, urbanas, rurais, etc. Temos que levar em conta todos os elementos que compõem a variedade de cada indivíduo. Cada pessoa tem a sua língua própria e exclusiva, sem deixar que ela a separe da comunidade na qual está inserida.

Em todas as comunidades falantes, as línguas variam. E as diferenças existentes em uma língua não são casuais, mas são consequências da variedade social. As diferenças na fala das pessoas são produzidas por fatores externos, como região, idade, sexo, classe social. Grupos podem ser caracterizados por traços linguísticos, meios fornecidos para identificação social. A variação da língua também está condicionada a fatores internos, isto é, a variação pode ser uma padronização estabelecida através da gramática interior da língua. Se os fatos linguísticos variam, podemos dizer que as regras também são variáveis, ao incluir condicionamentos externos e estruturais. Contudo, mesmo considerando todas as evoluções linguísticas, a partir de sua história e dos seus contatos éticos, o ensino da língua portuguesa no Brasil é pontuado pelo mito da unidade linguística, na qual a língua de Portugal se manteve como unidade.

Nas instituições educacionais, há um trabalho de padronização, de criação e cultivo de um modelo de língua que investe num processo de cristalização da norma-padrão, dando a esta uma impressão de ser mais nobre que as demais variedades linguísticas. É preciso que a escola e todas as demais instituições voltadas para a educação e a cultura abandonem esse mito de „unidade” do Português e passem a reconhecer a verdadeira diversidade linguística do nosso país, para melhor planejarem suas políticas de ação junto à população amplamente marginalizada dos falantes das variedades “não-padrão”. Existe uma tendência de querer obrigar o aluno a pronunciar a palavra do jeito que se escreve, como se isso anulasse o tão natural fenômeno da variação.

A proposta deste artigo é pensar num estudo da língua a partir de seus movimentos e diversidades, já que não existe nenhuma língua que seja uma só, um bloco compacto, sólido e firme. Ao valorizarmos apenas a norma-padrão, esta passa a ser designada como única representante dos falantes da língua, sendo que em outras variedades, também há recursos linguísticos suficientes para o desempenho da função  de veículo de comunicação e interação social. Ao trabalharmos apenas dentro deste efeito de homogeneidade, provocado pelo processo de colonização, podemos silenciar a voz de um povo oprimido, herança deste mesmo processo de exploração do País. O ensino da língua sempre se baseou na norma gramatical de Portugal. Logo, as regras que aprendemos na escola não significam muito para nós. Observa-se hoje que o profissional em Letras, ao trabalhar com a língua, está mais preocupado em usar terminologias do que em garantir a qualidade no uso da língua, mediante atividades como fala, leitura e escrita. Quando os professores da língua focam apenas no ensino de uma Gramática que toma por base a variedade padrão da língua, corre-se o risco de desprezar as outras e, com isso, podemos silenciar as vozes que constituem as múltiplas variantes da língua.

Celso Pedro Luft (1985) propõe uma mudança radical em nossas aulas de português. Tendo por base as concepções de Noam Chomsky, que possibilita que a criança aprenda qualquer língua apenas no convívio com a comunidade na qual está inserida, ele acredita que o falante de português deve ser tratado como alguém que sabe a gramática de sua língua materna intuitivamente, e cabe a escola incentivá-lo a liberar suas potencialidades, desenvolvendo um ensino sem opressão.

O ensino de gramática entende-se pelo estudo de regras de construção de estruturas e pela análise destas construções. Ao estudar como certos aspectos de uma língua se estruturam, estudamos a organização das expressões utilizadas por membros de uma comunidade linguística, tentando, com isso, consolidar o uso de uma variedade de prestígio. E quando damos ênfase apenas a textos literários, reduzimos a língua.

Entendendo a gramática como um “conjunto de regras”, a disciplina traz a ideia de obrigação, de lei. Pessoas que transgredem normas é apontado como marginais, logo os falantes que não se expressam de acordo com as regras da norma-padrão acabam sendo marginalizados, o que dificulta ainda mais seu acesso a situações diferentes do seu cotidiano, ou seja, a situações diante das quais ele tenha mais contato com a norma culta. Se não levarmos em conta a capacidade de adaptação dos falantes às condições de sua fala, estaremos simplificando o seu conhecimento de forma preconceituosa. O português é tachado de difícil porque essa ideia serve para manter o status quo das classes sociais privilegiadas. Quando, na verdade, a gramática normativa tradicional é que dificulta a fluência da língua para justificar sua existência e a fim de nos convencer de sua indispensabilidade.

Toda manifestação na língua falada diferente das regras prescritas pela gramática normativa, apresentada como codificação da “língua culta”, é rotulada como se errada fosse. Os grupos que falam uma língua ou um dialeto em geral julgam a fala dos outros a partir da sua e acabam considerando que a diferença é um defeito ou um erro. Contudo, a definição de erro é um problema complexo. Para o linguista Marcos Bagno (1999), não existe erro de português, visto que todo falante nativo de uma língua é falante plenamente competente para discernir um enunciado. Erra-se naquilo que se aprende, naquilo que se constitui um saber secundário, naquilo que se exige treinamento, memorização. Todo falante de português conhece sua língua implicitamente. E esse conhecimento interiorizado é adquirido naturalmente pela criança, a partir dos significados que ela cria através da língua.

Não se pretende aqui questionar a indispensabilidade de se trabalhar com a gramática, porém esta não deve estar dissociada da realidade. É preciso que escola reflita sobre textos reais, pois antes do aluno aprender um conjunto de normas para “falar e escrever bem”, faz-se necessário que a língua seja instrumento de construção de um cidadão que sabe opinar, argumentar, concordar ou discordar. Ao reiterarmos apenas os padrões conservadores das elites sociais, ou seja, ao priorizarmos as normas eleitas por elas, corremos o risco de fomentar os julgamentos de valor sobre os diversos usos linguísticos.

O domínio de uma língua se dá por práticas contextualizadas, significativas. Em casa, a criança tem um uso efetivo da língua em, uma tentativa de dar sentido ao que o outro diz. E o modo de conseguir na escola a eficácia da aprendizagem que a criança tem em casa é imitando as atividades linguísticas da vida. Para muitas pessoas, ensinar língua é a mesma coisa que ensinar gramática., mas a norma culta já existe e não é estabelecida pela gramática normativa. O linguista Marcos Bagno (1997) aponta uma confusão entre língua e gramática que foi criada no curso da história. Gramática em grego, significa “a arte de escrever”, seu estudo surgiu com o objetivo de investigar as regras da língua escrita para preservar a língua literária. A gramática é decorrência da língua. Mas, ao passar a ser um instrumento de poder e controle, é como se a língua passasse a ser dependente da gramática.

Quando um professor deixa de trabalhar com a gramática implícita através de leitura e produção de textos para impor teoria ou regra gramatical, há uma insegurança que encolhe a espontaneidade da livre expressão. O aluno descobre o erro e frustra-se, tornando-se inseguro para refletir e agir em sociedade. Não cabe a escola apenas o papel de transmissor de regras, que ensinem uma variedade em lugar da outra. Deve se pensar em um espaço onde os alunos aprendam também variedades que lhes são desconhecidas, incluindo a linguagem peculiar de uma variedade mais complexa e articulada.

Não se questiona aqui o objetivo da escola em criar condições para que o uso efetivo do português padrão. Contudo, o domínio do português padrão não consiste na aquisição de regras gramaticais, mas sim em domínios textuais. A proposta é que, durante a educação básica, os professores chamem atenção a atenção dos alunos com atividades que desenvolvam suas habilidades de expressão, fazendo com que eles se sintam confiantes na hora de usar os recursos de seu idioma.

É claro que os professores de língua precisam conscientizar seu aluno de que o conhecimento da norma padrão é direito de todos os cidadãos, pois é um fator de agregação social e cultural, e cabe a escola possibilitar este acesso aos alunos. Mas ao ensinar a gramática tradicional, os fenômenos da língua oral não podem ser desprezados. A escola deve ser democrática ao acolher as variações linguísticas. Ao apresentar a hegemonia da norma culta, não podemos desconsiderar os fatores que geram a diversidade linguística, como situações socioeconômicas, escolaridade, localização geográfica e faixa etária.

O professor de Língua Portuguesa deve desenvolver um trabalho com a oralidade de forma que o aluno transite pelas diferentes esferas   sociais e entenda a necessidade de usar a norma culta em determinados contextos, a fim de se posicionar criticamente diante da sociedade. Há diversas possibilidades de trabalho com gêneros orais e este deve ser consistente, visando sempre ao aprimoramento linguístico e à argumentação. O professor deve preparar atividades que norteiem o aluno a adequar sua linguagem ao contexto do uso, atividades que ressaltem as diferenças lexicais, sintáticas e discursivas, características de cada variedade linguística, e atividades sobre os conectivos que marcam a coesão e coerência conforme a formalidade de cada gênero.

O aperfeiçoamento da escrita se faz a partir da produção de diferentes gêneros. A produção escrita possibilita que o aluno tenha voz em seu texto e interaja com as práticas de linguagem da sociedade. Cada gênero discursivo é fruto de uma construção coletiva e tem suas peculiaridades, como composição, estrutura e estilo. O aluno precisa compreender o funcionamento do texto escrito, seus elementos significativos próprios, sua intenção e seus elementos de organização. Através do texto dos alunos, o professor pode refletir e analisar aspectos discursivos, textuais, estruturais e normativos. Enquanto produz um texto, o educando aprimora sua competência de comunicação, aumenta seu universo referencial, aperfeiçoa o seu sistema de organização e entende as exigências da gramática normativa. A partir de sua fala, o aluno deve refletir sobre o conteúdo temático, a estrutura dos gêneros em diferentes esferas sociais, a unidade de sentido do texto, os argumentos e a função do locutor e do interlocutor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O professor precisa criar um método apropriado para que o aluno aprenda a ler e a produzir texto com menos gramática e mais crítica e criatividade. O aluno necessita de um reforço para o que já sabe, para a sua gramática implícita, expandindo assim o seu conhecimento ao incorporar elementos do padrão culto.

É preciso dar a oportunidade dos alunos terem acesso a bons textos para descobrir os recursos de sua língua e conhecer o poder de uma linguagem mais expressiva. Tendo mais segurança no   uso da sua palavra, o aluno entende o seu poder libertador. Trata-se de não ensinar a língua portuguesa a partir da gramática preconizada como “correta”, mas sim de despertar a gramática interna que todos possuem, aquilo que sustenta o sistema de qualquer língua. A língua é viva, está em constantes evoluções, e o professor só consegue adaptar seu planejamento a tais mudanças quando deixa de lado qualquer tipo de obsessão gramaticista e reflete sobre participação do aluno no dinamismo da língua.

O estudo da disciplina não deve ser resumido a ações pedagógicas que apenas higienizam o texto do aluno em aspectos gramaticais e ortográficos. A prática didática não deve se resumir a correções, mas é fundamental que o professor trabalhe o texto com o aluno, levando-o a atingir seus objetivos com os leitores a que se destina, considerando também questões de coesão e coerência, a análise dos recursos expressivos, as variações da língua e todo o contexto discursivo. Para isso, é fundamental que o profissional tome como base o texto do aluno em diálogo com diferentes gêneros textuais.

POR: BEATRIZ OLIVEIRA ORTEGA