/MEDIAÇÃO E TUTORIA: ESTRATÉGIAS DE APRENDIZAGEM NO ENSINO BÁSICO

MEDIAÇÃO E TUTORIA: ESTRATÉGIAS DE APRENDIZAGEM NO ENSINO BÁSICO

Muitos são os desafios que os profissionais da área da educação têm enfrentado nas últimas décadas, entre eles, está à exigência de uma formação mais ampla (formação inicial, formação continuada), a falta de incentivos para o magistério, os baixos salários, a inclusão, o resgate do valor social, o insucesso escolar, o letramento digital e questões relacionadas à disciplina.

Embora nos últimos anos tenham ocorrido incentivos nas políticas educacionais em nosso país, verifica-se que ainda não é o suficiente para solucionar os problemas da aprendizagem escolar. Pesquisas recente na área da Educação demonstram que os alunos da educação básica apresentam maiores dificuldades nas seguintes áreas: escrita, leitura, interpretação de texto, falta de raciocínio lógico e matemático. Elementos estes essenciais para uma aprendizagem mais significativa.

Estas dificuldades podem estar relacionadas a uma série de fatores, tais como: ausência de motivação para com os estudos, questão relacionada à vida familiar, contexto escolar ou políticas públicas adotadas. Fatos estes, que revelam que apesar dos esforços do governo, professores e educadores em geral, os alunos continuam demonstrando um baixo rendimento escolar. A maior parte dos alunos não assume a gerência do seu agir, apresentando insuficiente aprendizagem  em determinados conteúdos e falta de envolvimento nas atividades escolares. Esses fatores aliados a outros aspectos geram fatalmente resultados de fracasso escolar (ROSÁRIO; NUNEZ; PIENDA, 2007).

Diante  desta realidade a escola passa a ter um papel social e profissional mais relevante e passa a assumir responsabilidades educativas mais desafiadoras, além da   mera   transmissão de conhecimentos, cumprindo esta dentre muitas necessidades de integrar a função de socializar o aluno no seu contexto e realidade em que vive.

Cada vez mais se faz necessário à participação da escola a assumir responsabilidades educativas, além da mera transmissão de conhecimentos, cumprindo esta dentre muitas     necessidades de integrar a função de socializar o aluno no seu contexto e realidade em que vive. A par dos inúmeros desafios que são colocados à escola, observa-se também um interesse crescente pela educação informal em contextos intra e extraescolar, através, por exemplo, de projetos de pesquisa, uso e desenvolvimento das tecnologias da educação, projetos que se incluam para além da escola, como feiras de ciências, visitas a museus, centros científicos e bibliotecas.

Para tal abordagem ressalta-se a importância de construção de uma rede entre a comunidade escolar (alunos, pais, professores e direção) e outras instancias sociais como comunidades, instituições particulares e governamentais.

Neste contexto desafiador para os educadores a tutoria e a mediação podem desempenhar um papel relevante de suporte à criação e o desenvolvimento de parcerias que fomentem uma espécie de “tecido” social educativo mais organizado e articulado.

Diante  do entendimento educativo, o que é um tutor?  Qual é o seu papel e o que explica sua presença num contexto escolar? Qual é a função de um tutor no nível da educação básica? Quais são   as    aprendizagens e competências que a mediação e tutoria podem promover em meio de uma construção de identidade na comunidade educativa?

A palavra tutora vem do latim tueiri que significa proteger, ter cuidado com… Neste sentido tutor é alguém (educando ou educador) que é encarregado de tomar conta de outra pessoa, de velar por ela e de ajudar se for preciso, a superar dificuldades (CAETANEO, 2009, p.11)

O conceito de tutoria não é atual, seu início deu- se nos anos 60 nos Estados Unidos, onde professores americanos se viam em dificuldades com alunos de diversas culturas, e que não falavam a língua da escola. Diante dessa dificuldade, Peggye Ronald Lippitt tiveram a ideia de recrutarem tutores que fossem capazes de se comunicar com estes alunos. (CAETANEO, 2009, p.11)

Contudo hoje, o mesmo conceito está sendo resgatado mais de uma   forma   consciente e adaptada a realidade vivenciada pela nossa sociedade, onde a educação não está restrita a pobreza de se ler um livro   e   simplesmente se transmitir esse conhecimento.

RELAÇÕES INTERPESSOAIS ENTRE PROFESSOR X ALUNO TUTOR/ALUNO TUTORADO

Inúmeras questões surgem então, como por exemplo: como o professor deve escolher os tutores que pretende associar aos seus alunos tutorados? Que critérios devem ser considerados? Que características devem ser encontradas neste aluno tutor?  Para isso o docente deve procurar no tutor algumas características peculiares à função? O tutor deve ser capaz de desenvolver um espírito investigador qualitativo identificando nestas algumas características peculiares à função que desempenhará, o docente deve encontrar características nos tutores de empatia, estabilidade emocional, espírito de liderança, autenticidade e curiosidade científica. Ajudando a estabelecer entre alunos e professor uma relação de confiança e proximidade. Produzindo e organizando informações facilitando o desempenho do aluno. (MORAES, 2004)

 Os tutores precisam manifestar    interesse no campo de ajuda proposto, de fato como é possível ajudar uma pessoa sem manifestar pela a mesma um mínimo de empatia, atenção e benevolência?

Para professores que já algum tempo vem desenvolvendo esse modelo de integração social  e   educacional em  suas  salas  de aulas, especificamente de tutoria no ensino básico   a   justificativa de suas necessidades de  uma   segunda figura    no    processo de aprendizagem que funcione como colaborador   na    difícil e  dinâmica     tarefa de ensinar vem de encontro à multi fatores enfrentados pelos docentes,   tais    como: A  grande   quantidade de alunos em sala, os extensos conteúdos programáticos, o aumento da indisciplinas do alunos, a necessidade crescente de estratégias de ensino que captem de volta a atenção do aluno e também os baixos salários.

Também são indicados à falta de fundamentação teórica do professor, o pouco interesse na formação do aluno integral e o distanciamento entre os conteúdos ensinados e o dia a dia do aluno, além do número reduzido de aulas, a falta de material para a orientação, a escassez de bibliografia específica e atualizada, a falta de tempo para o preparo das atividades e de professores de apoio está entre as principais dificuldades apontadas pelos professores. (BARROS, 1994).

De acordo com Finkelstein e Ducros (1989) o estatuto dos não profissionais afirma que tutores nas salas de aulas podem ser levados a ajudar os profissionais de educação que são os professores. Mas porque razão há da necessidade de tutores quando, por definição os professores são os especialistas em educação?

Porque muitos  educadores apresentam dificuldades de trabalhar com alunos em sala de aula? Foi essa dificuldade que trouxe à tona a retomada da ideia de tutores ao cenário escolar.

O   aluno   tutor deve funcionar como um mediador, sendo ele da própria classe, suas chances de darem certo como tutores se multiplicam, uma vez que o fator amizade contribui para a melhora das relações interpessoais entre alunos do grupo de controle e   docente e o próprio docente. O trabalho do tutor deve se fazer em nível de fixação dos conteúdos dados em sala de aula, elaboração de tarefas de casa, mediação entre turma e professores, coordenação e escola. O tutor também é encarregado de dar o feedback ao professor a quantas anda o processo de aprendizagem de seus alunos e o nível de satisfação e/ou motivação dos mesmos fretes a sua disciplina.

Os professores então começaram a perceber e se questionar: e se nesse   processo os tutores também progredissem? Percebe- se de maneira geral que alunos que ajudam o professor a ensinar aprendem de uma forma mais significativa, ganham autoestima ajudando a outros a conseguirem aprender, além do aumento de popularidade tão almejada por alunos na faixa etária entre 10 a 15 anos.

AS IMPLICAÇÕES DO COMPARTILHAMENTO DO CONHECIMENTO

O compartilhamento de saberes através da tutoria tem o objetivo de fazer a aluno adentrar aos conteúdos acadêmicos com um olhar de cunho científico e, por conseguinte, estabelecer trocas de conhecimentos por meio de sua participação através da oralidade de explicações sobre um determinado assunto aos alunos de classe.

Entendendo   que é de suma importância o    compartilhamento de conhecimento no processo de ensino aprendizagem tem- se a seguir algumas declarações retiradas de uma experiência em tutoria realizada em 2016 em um programa de tutoria idealizado pelo pesquisador na escola Adventista de Mogi Guaçu no qual alunos previamente preparados pelo mesmo desenvolveram o projeto junto aos seus pares aluno-aluno. Abaixo exemplificamos algumas falas de alunos tutores:

 […] me ajudou muito a aprender mais sobre os conteúdos, como ele funciona, porque nós executamos e explicamos nosso conhecimento, aprimorou nossa mente para novas ideias sobre as matérias. […] (Aluno A, 2012).

[…] virar tutor me fez primeiramente entender que a união faz a força, porque a sala se uniu para fazer dar certo. Ela me fez ter mais consciência de como é uma atividade escolar, como é realizado uma atividade por um professor, como deve ser a postura na hora de ensinar, vi como existem milhares de coisas diferentes bem perto de nós e nem se quer nos damos conta […] (Aluno B, 2012).

Durante as aulas percebo   o   quanto falam de um jeito […] e perguntam […]. Alguns pedem para   explicar de novo, perguntam muitas coisas referentes às matérias. Enfim, milhares  de   perguntas o que para nós é bom, pois desperta nosso interesse em saber para explicar direito, e eu fico contente  porque ainda estou aprendendo e agora estou vendo as matérias de uma forma mais legal e descontraída, com mais vontade de entender tudo que a professora ensina, justamente para poder ensinar  melhor aos meus companheiros. (Aluno C, 2012).

A fixação do conhecimento através do compartilhamento é importante e fundamental para o processo de construção de novos conhecimentos. Em acordo com Lin (2007) é possível definir compartilhamento como sendo uma cultura de interação social em que   ocorre a troca de conhecimentos, experiências e habilidades.

Em análise geral percebe-se que houve o aumento da motivação dos alunos pelo aprendizado dos conteúdos e que o compartilhamento do conhecimento é   algo de grande importância no processo ensino aprendizagem.

Porém, durante esse processo, surge outra questão. Alguns tutores são bem-sucedidos na ajuda que prestam, mas outros falham. Qual a razão deste insucesso? Muitas vezes isso acontece por falta de acompanhamento adequado do tutor pelo docente responsável pela escolha destes. Pede-se dizer assim que a receita certa de bons tutores reside na “associação de competências” acadêmicas (domínio da matéria) e de qualidades pessoais (quase que se pode dizer uma vocação pedagógica). Os tutores não aptos à função deixam de dar atenção adequada aos seus tutorados, também não os ouvem como o deviam.

A fim de atenuar essas dificuldades deve ser criado pelo docente responsável uma espécie de manual do tutor. Neste manual, o docente deve tratar de estabelecer atitudes dirigidas a nortear todas as relações interpessoais           dos envolvidos (professor, aluno tutor, alunos tutorados) deixando bem claro os objetivos e metas a serem    alcançados na dinâmica educativa proposta de tutoria. Tais objetivos devem- se basear nas seguintes diretrizes:

Acompanhamento prévio das aulas do docente titular ao seu aprendiz (tutor) com a finalidade de sanar possíveis dúvidas e colocá-lo em um “patamar” não igual ao aluno, mas superior nas questões de domínios dos conteúdos, para que o mesmo possa auxiliar os discentes tutorados nas prováveis dificuldades que surgirão em classe.

Aprofundamento dos conteúdos a serem estudados com o tutor. Atenção por parte do docente à percepção do tutor frente às dificuldades dos alunos. Motivação e estimulo do tutor por parte do educador, da coordenação, escola e pais.

Acompanhamento minucioso sobre o enquadramento do tutor e dos tutorados no sentido rumo à formação de uma equipe que melhore a qualidade de ensino e de aprendizagem.

O tutor se bem direcionado também pode ajudar em muito nas situações difíceis enfrentadas pelos docentes nas questões disciplinares que tanto atrapalham o ensino atual.

O tutor deve funcionar como figura distinta em sala de aula, ele não é um aluno meramente aprendiz, mas também não é o professor regente com suas reais responsabilidades. Deve ser entendido pelos alunos como um deles e o qual os represente frente ao professor como um mediador. Uma vez essa ideia estabelecida a portas fechadas em sala de aula, agora o tutor além de auxiliar poderá funcionar também como mediador principalmente nas questões disciplinares e de ordem da classe, contribuindo para o desenvolvimento de um ambiente propício a aprendizagem.

“Deste  ponto de vista, o método cooperativo simétrico merece alguma atenção (BOUDRIT,2004). Este método designa-se por cooperativo, porque os alunos são convidados a agir em conjunto, porque um dos alunos tem vantagem sobre os seus colegas nas atividades realizadas.”

Neste tocante o professor titular deve estar atento e ter o cuidado de não deixar que suas responsabilidades recaiam de forma pesada e inadequada sobre o tutor.

Outra vantagem identificada ainda para os alunos tutores é um olhar mais numa perspectiva de pré-profissionalização a qual a vantagem é dupla: os que desejam seguir o magistério podem fazer um ensaio exercendo a tutoria, os quais não tem a pesada responsabilidade de uma turma inteira e ao mesmo tempo não se frustram de apenas serem meros ouvintes e espectadores em sala de aula.

O ALUNO TUTORADO

No tocante a alunos tutorados, estes conseguem atingir os objetivos de aprendizagem por um “caminho” mais rápido, pois são beneficiados pela utilização de linguagem semelhante por parte do tutor e processos cognitivos parecidos inerentes as idades próximas além do coleguismo e companheirismo já existente, e também o acesso mais facilitado ao tutor do que ao professor que muitas vezes se desdobra em sala de aula não conseguindo dar atenção necessária a todos seus alunos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No método tutorial é visível sua utilização em variados lugares e situações (na   escola, na família, no mundo profissional e no campo social) permitindo por vezes a passagem da transição de uma esfera para outra apresentando uma flexibilidade grande como, por exemplo, tutorias individualizadas, coletivas, em par, etc.

Como afirma Schnetzler e Aragão (1995) ao declarar que qualquer professor pode ser mais do que simples transmissor de informações, desde que se   sinta   impelido a buscar novos rumos para sua prática profissional.  Entende- se que é necessário que o professor se sinta desafiado a fazer com que suas aulas sejam uma constante investigação, e que ele leve o aluno a uma contínua reflexão, tanto nas aulas teóricas quanto nas aulas práticas.

É visto que a aprendizagem se torna mais significativa quando esses conhecimentos apreendidos na imbricação da teoria com a prática se envolvem com o compartilhamento das aprendizagens. No que diz respeito às estratégias no ensinar é possível dizer, por meio da análise dos dados, que o compartilhamento de conhecimento é uma estratégia de ensino e de aprendizagem eficaz nos processos didáticos.

“Esta modalidade pedagógica presta-se a uma multiplicidade de variantes, e o pior que se poderia fazer a tutoria seria estandardiza- lá” (BAUDRIT, 1999, p.65). Assim sendo é fundamental    pensar nos desafios sociais e científicos atualmente considerados pelo método tutorial.

POR: WALDEMAR BARRETO