/O ENSINO DE MÚSICA E O DESENVOLVIMENTO AFETIVO DA CRIANÇA

O ENSINO DE MÚSICA E O DESENVOLVIMENTO AFETIVO DA CRIANÇA

A criança na Educação Infantil enxerga o professor como um exemplo de comportamento a ser seguido. O modelo que está passa aos estudantes pode ser hostil ou amigável, exercendo influências com relação ao comportamento dos alunos em relação ao espaço, aos outros alunos e com os próprios professores durante todo o processo educacional.

A personalidade é formada durante a infância e é neste momento em que o afeto e a consideração pelo outro devem estar presentes e serem desenvolvidos, com a finalidade de, não só evitarmos situações de violência que podem vir a surgir no ambiente escolar, mas contribuirmos com a construção de valores humanos. É importante destacar que, para o desenvolvimento da afetividade o ambiente deve ser propício para aplicar atividades que envolvam o afeto com maior liberdade de expressão de sentimentos. Para isto, a música possui um potencial natural para se trabalhar com as crianças as questões ligadas à expressão de suas emoções, além de ser detentora do poder de acalmar ou mobilizar, entristecer ou alegrar os indivíduos – afinal, os sons carregam seus significados. Pretendemos a partir destes significados, expor um trabalho voltado para incrementar a escuta musical, fundamentado nas propostas de Edgar Willems (1890 – 1978) e Murray Schafer (1933).

A MÚSICA NO DESENVOLVIMENTO AFETIVO

No prefácio do livro L’oreille musical (o ouvido musical), escrito por Willems (1976/77), Dalcroze relembra o quanto é recente a preocupação dos educadores com relação à formação das faculdades auditivas da população. Ele aponta que o período anterior à Revolução Francesa (1789) foi marcado por desenvolver exercícios técnicos de harmonia e contraponto sem o interesse musical da preparação auditiva. Após a Revolução, houve uma necessidade de se ensinar música à população de uma maneira mais democrática e como consequência natural deste propósito, surgiram músicos interessados em desenvolver uma educação voltada a descoberta de métodos ativos e estratégias de ensino voltadas para a qualificação auditiva.

Em sua proposta de ensino, Willems expõe dois aspectos: o teórico, que engloba os elementos fundamentais da audição e da natureza humana; e o prático, que organiza o material didático para aplicação de suas ideias em educação musical. Ele estuda a audição sob três aspectos: sensorial, afetivo e mental; correlacionando-os com os três domínios da natureza do homem: o físico, o afetivo e o mental.

Para Willems, toda criança pode ser preparada auditivamente, na forma de aprender a ouvir os materiais sonoros que compõe a música e organizá-los por meio da experiência musical. A ideia central é fomentar a cultura auditiva para todos, sem exclusão ou puramente destinada à pessoas talentosas. Ele advoga para a necessidade de o preparo auditivo antevir ao ensino de um instrumento musical, defendendo que a escuta é a base para a musicalidade.

A audição, segundo Willems, indica aspectos como sensorialidade, sensibilidade auditiva e inteligência auditiva, que estão estritamente ligados a capacidade sensório- motora, a inteligência do homem, e a sensibilidade afetiva, avançando para uma dimensão espiritual; concedendo estas instâncias simultaneamente.

Nas análises de Willems, o som é um fenômeno natural, um objeto de estudo musical que está intimamente ligado com o funcionamento fisiológico do ouvido. Deste modo, os fenômenos vibratórios são percebidos pelos sentidos, e o som, como fenômeno específico, é percebido pela audição. Assim, faz-se necessário conhecer cientificamente o funcionamento do ouvido, analisar o trajeto do nervo auditivo, o que explicita os aspectos auditivos: sensorial, sensível e mental:

O nervo auditivo passa pelo bulbo (ações reflexas) e vai à conta ótica (sede das emoções) e só depois chega ao cérebro. (WILLEMS, 1985,p.27)

SENSIBILIDADE AFETIVA E AUDITIVA

Manifesta-se uma sensibilidade afetiva e auditiva quando passamos do ato sensorial de ouvir a uma intenção de escutar. Segundo Willems o que há de paradoxo no ensino de música é que a questão da educação sensorial sempre foi alvo de contestações, no entanto, isto não ocorre com a sensibilidade afetiva e auditiva, pela questão de que a maioria dos professores julgam que ela possa evoluir; poucos que conhecem a natureza afetiva do ser humano e suas relações com a música para desenvolver princípios de afetividade auditiva em seu ensino. A criança é muito emotiva, cabe ao professor sentir esta afetividade e trabalhar com seus alunos de forma a torna- los mais conscientes. A música é uma arte que introduz a emotividade naturalmente, através dos estudos de melodias, escalas, os intervalos, improvisações e pequenas canções.

Para Willems a inteligência auditiva está intimamente ligada à tomada de consciência do universo sonoro, como elemento artístico, interpretativo ou de criação. A inteligência auditiva constitui-se também, em uma síntese das experiências auditivas sensoriais e afetivas, construindo-se sobre seus dados. Ela se comporta sobre aspectos ligados a comparação, associação, análise, síntese, memória, imaginação criativa, além da escuta interior; tendo a capacidade de isolar os sons, enquanto a simultaneidade destes só pode ser apreendida com o desenvolvimento da atividade cerebral, e assim, com a inteligência auditiva.

Na mesma via de proposta, encontra-se Murray Schafer (1933), nos quais se inserem ideias que acreditam na qualidade da audição, na relação equilibrada entre o homem / ambiente e no estímulo à capacidade criativa. Segundo suas propostas, as crianças deveriam tomar contato e ser estimuladas a apreciar a música através de um repertório que abrangesse vários estilos e épocas.

Através de Schiffer, o treinamento e as regras rígidas de uma metodologia de ensino tradicionalista são substituídos pela concepção de estimular os estudantes na busca de respostas às questões que lhes propõe, favorecendo a discussão e o diálogo aberto entre os alunos e o professor. Ele sugere que as atividades podem ser executadas dentro ou fora da sala de aula, com grupos de qualquer faixa etária e com ênfase no som ambiental, podendo ser utilizadas ou não, dentro de um currículo específico de música.

A Educação Sonora de Schafer procura envolver questões ligadas a qualidade da escuta, da avaliação crítica do ambiente acústico, além de propor soluções para a melhoria de sua qualidade. A capacidade auditiva tem sido constantemente prejudicada com o aumento desenfreado do ruído e pelas condições da    vida    moderna, para recuperar estas capacidades é preciso voltar aos exercícios simples de escuta musical.

Ao contrário de outros órgãos dos sentidos, os ouvidos são expostos e vulneráveis. Os olhos podem ser fechados, se quisermos; os ouvidos não! Estão sempre abertos. Os olhos podem focalizar e apontar nossa vontade, enquanto os ouvidos captam todos os sons do horizonte acústico, em todas as direções. (SCHAFER, 1991).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apresentamos, por meio deste artigo, um breve   apanhado   sobre o desenvolvimento da afetividade das crianças em relação à escuta musical.             Podemos concluir que, através das observações de educadores como Edgar Willems e Murray Schafer, é possível trabalhar a questão auditiva com o desenvolvimento de valores, a expressividade e a emoção em sala de aula.

Vimos que o uso da música contribui e é essencial neste aspecto, talvez por ser uma linguagem tão singular quanto à linguagem dos sentimentos; O mais acolhedor é saber que este ensino pode ser democrático, que não é mais tão restrito apenas às pessoas com talentos musicais, mas também é acessível à uma camada mais ampla da sociedade.

Esperamos ter despertado o desejo de ensinar às crianças o ouvir, se autodescobrirem através dos sons e ter estimulado os professores a instituir um trabalho com relação à escuta em sua sala de aula.

 POR: MAUREEN HELOISA ROY DICHEL