/O PAPEL DA LEITURA NA CONSTRUÇÃO DO SUJEITO

O PAPEL DA LEITURA NA CONSTRUÇÃO DO SUJEITO

INTRODUÇÃO

O currículo escolar é constituído por áreas nas quais as atividades de linguagem estão sempre presentes. O texto escrito é um recurso em quase todas as áreas, e a complexidade dos textos vão aumentando conforme se progride na escolaridade. Recentemente, passou-se a promover a leitura de entretenimento, uma leitura que atende as demandas mercadológicas capitalistas.

Objetos de leitura são produzidos e vendidos como objetos da cultura de massa. O indivíduo lê para seguir as instruções de trabalho adequadamente e reproduzir os valores da classe dominante, sem que haja um rompimento com aquilo que lhe foi dado e sem que haja uma promoção de acesso a outras expressões de cultura de forma efetiva. O apelo de ação é para a reprodução de atitudes conforme a ideologia do senso comum.

Não se pretende neste artigo superestimar a capacidade da leitura como atividade suficiente para fornecer representações que nos restabeleçam. É claro que também necessitamos de vínculos sociais e de outras práticas culturais que saciem essa busca pela expressão. Ao nos entregarmos a uma leitura que não seja utilitária, podemos nos instrumentalizar contra os sistemas rígidos de compreensão do mundo, contra os conservadorismos que nos imobilizam.

O presente artigo abordará a literatura como um direito como um direito indispensável para a humanização, a construção da cidadania e organização do caos interior que é inerente a todo ser humano. Apesar de romper com o isolamento, a literatura também pode ser vista como um ponto de apoio na elaboração da singularidade de todo o indivíduo.

Estuda-se aqui a importância da simbolização através da linguagem e da fábula no processo de estruturação psíquica do sujeito. Este trabalho pretende desmarcar a concepção ingênua da leitura, desprendida do embate ideológico, que não contribui no processo de interação do leitor com o discurso.

CONSTRUÇÃO DO SUJEITO

A partir da compreensão do texto, o leitor constrói uma ideia sobre o seu conteúdo, em função dos seus objetivos. A construção de uma interpretação se dá em um processo de previsões, ou seja, em uma constante verificação nos diversos indicadores existentes do texto. O significado que o autor quis dar para o texto nem sempre é o mesmo traduzido pelo leitor, visto que a leitura deste depende de suas peculiares expectativas, objetivos e conhecimentos prévios. O processo de interação entre o leitor e o texto implica na existência de um objetivo. Dependendo da finalidade de cada leitura, é possível se extrair informações distintas           do mesmo texto. Este propósito pode ser a busca de uma informação concreta, a necessidade de uma instrução, a refutação de um conhecimento prévio ou o simples desfrute de um momento de lazer. Para dar um objetivo para a própria leitura é preciso assumir o seu controle, gerar hipóteses sobre o conteúdo do que se lê.

A partir da voz interior de um leitor, milhares de vozes escondidas nos livros são reveladas. Ao ler, mobilizamos as informações fornecidas pelo autor e aquelas que se constituíram na nossa experiência de vida, fazendo essa voz interior reviver.

A leitura de entretenimento, muito promovida atualmente, envolve o leitor emocionalmente com a narrativa, atendendo a uma identificação imediata entre o mundo do leitor e do texto. Neste tipo de leitura, temos textos que vulgarizam conhecimentos, fragmentam conteúdos e tomam verdades como absolutas. São textos que, costumeiramente, não estremecem as bases culturais do leitor, não o colocam em estado de perda, de desconforto ou descontentamento.

Ao se reconhecer a dimensão política da leitura, o sujeito identifica que através dela pode reelaborar um conhecimento de mundo que lhe permite criticar sua própria condição de existência dentro da sociedade em que está inserido.

Muitas vezes, só somos capazes de explicitar o que vivemos pelas chaves que outros fornecem. Nossas obscuridades são iluminadas pelo pronunciamento de terceiros. Há sensações que nos são obscuras, que não conseguimos desenvolver sem essa troca. E a literatura nos dá versões das nossas experiências, retratando as nossas sensações por meio de uma decifração inconsciente. Ela cria pontes entre o eu e o outro, vínculos entre as nossas subjetividades e o que se mostra a todos.

A partir de fragmentos apanhados aqui e ali, fabricamos um sentido que nunca nos fora dado, conseguimos ordenar uma significação para a qual já nos inclinávamos antes. Compartilhando a leitura, o leitor pode experimentar a sensação de pertencer a alguma coisa. A leitura possibilita essa abertura para o outro não só pelas conversas que acontecem sobre os livros. Mas em um texto, ao experimentarmos a nossa verdade mais intima e também a humanidade compartilhada, as relações com o outro se transformam. Trata-se de elaborar uma relação com o mundo que dê sentido a sua vida.

A leitura precisa ser pensada como produto de uma ação cultural historicamente constituído, como um valor que se articula com o conjunto de valores e saberes socialmente construídos. O ato de ler é um processo que se constrói decodificando a linguagem escrita com contínuas inferências. O leitor processa a informação codificada em textos escritos, negociando as representações do mundo que estes o trazem, em função de seus conhecimentos e valores prévios. Toda leitura exige um envolvimento entre a informação textual e a própria bagagem do leitor.

A leitura dialoga com a confusão mental provocada pela incompreensão intrínseca ao que está fora de nós. O nosso ser vive em uma constante busca por elaborações simbólicas que muitas vezes nos leva, através das fontes, ao conhecimento de nós mesmos. Redirecionando o texto através das nossas significações, podemos encontrar nele o que o autor não pensou. Quando a leitura não é encarada em sua função utilitária, como algo que é imposto, ela pode se tornar parte do indivíduo, pode fazê-lo rememorar as páginas mais difíceis de sua vida, pode acionar os registros traumáticos mais obscuros do sujeito.

A LEITURA COMO UM DIREITO BÁSICO

Para o sociólogo e crítico literário Antônio Cândido (1988), a literatura ter de ser vista como um direito básico do ser humano. Em geral, pensa-se na literatura como instrumento transmissor de conhecimento, como um tipo de instrução. Contudo, o efeito das manifestações literárias é devido também à maneira pela qual a mensagem é construída. O significando de uma obra literária é construído dentro de um aspecto estrutural. É esse objeto construído, essa estrutura gerada pela força da palavra, proposta dentro de um modelo de coerência, que humaniza o leitor. Essa organização de construção dentro da obra literária é que nos deixa mais capazes de, organizar nossa mente e sentimentos nossa visão de mundo. Neste sentido, uma obra de difícil entendimento, pode sugerir um modelo de superação do caos. Na medida em que tira as palavras do nada e as dispõe como todo articulado. Essa organização da palavra fala com o espírito e o leva a organizar a si e ao mundo.

Estamos sempre em busca de ecos confusos, que às vezes são revelados explicitamente pela leitura. Toda obra literária pressupõe a superação do caos, escolhida por um arranjo de palavras, a partir de uma proposta de sentido. O conteúdo só atua por causa da forma, que traz em si uma capacidade de humanização devido à coerência mental sugerida. O produtor escolhe uma forma a partir de um material bruto e é esse caos originário que se torna ordem, ordenando assim o meu caos interior. Independente do meio onde vivemos, precisamos de representações, de figurações simbólicas que nos tirem do caos interior. Através de uma expressão exterior, nos instalamos em nós mesmos.

Não se pretende neste artigo superestimar a capacidade da leitura como atividade suficiente para fornecer representações que nos restabeleçam. É claro que também necessitamos de vínculos sociais e de outras práticas culturais que saciem essa busca pela expressão. Mas também não se pode negar que há, na leitura, um acesso a espaços mais amplos. Há a promessa de alargamento desses espaços, de viajar sem sair do lugar, de se abrir para o que está distante, o novo.  Deve ser lembrado também que novas formas de sociabilidade são suas consequências. Quando partilhamos e conversamos em torno dos livros rompemos o isolamento.

A biblioteca é capaz de promover algumas interações entre leitores ou entre leitor e escritor. A partir desses encontros que nos tocam de forma subjetiva, podemos mudar a nossa trajetória. Os seres humanos se constituem na intersubjetividade. Acessando outras formas diferentes de sociabilidade, elaboramos uma identidade singular. E assim o leitor é convencido da ideia de que se pode escolher a própria estrada. Ao perceberem que dividem as mesmas emoções ou confusões, os leitores sentem-se vinculados ao autor, aos personagens, a quem já leu ou a quem lerá o livro.

Apesar de proporcionar está familiarização com o exterior, de favorecer um deslocamento até o lugar do outro, com menos indiferença a este, a leitura tem a ver com o segredo, com o amor ou com a dissolução de identidade. Embora haja nela a arte de habitar, de dispor das coisas que se tem ao redor, diminuindo a distância e a singularidade do que é exterior a nós, existe uma ideia de que toda palavra verdadeira tem uma dimensão oculta. A leitura abre um espaço íntimo povoado, um lugar onde as falas do outro se juntam e revelam uma parte oculta de nós mesmos. Nós nos consolamos de nossas frustrações com as histórias dos outros.

O leitor é capaz de se delimitar, de traçar seus próprios contornos. Mas também se vê separado do que o cerca, vê-se pensando de forma autônoma. Lendo, aprende-se a própria liberdade. Muitos adolescentes leem estimulados pelo desejo de seus pais. Mas há também aqueles que encontram na leitura uma escapada solitária, um ponto de apoio para elaborar sua singularidade.

Há uma dimensão de transgressão na leitura. Se tantos leitores leem à noite, se ler é com frequência um gesto que surge na sombra, não é apenas uma questão de culpa: assim se cria um espaço de intimidade, um jardim protegido dos olhares. Lê-se nas beiradas, nas margens da vida, nos limites do mundo. Talvez não se deva iluminar totalmente esse jardim. Deixemos à leitura, como ao amor, uma parte de sombra.” (PETIT, 2008, p. 146)

Ler   é   criar cantos de sombra e, por isso, independentemente do horário em que se lê, ao redor do livro, faz-se noite. A partir de representações culturais e artísticas, este encontro com o livro pode levar o leitor à revelação do seu mundo interior, permitindo uma reconciliação psíquica, uma recondução do indizível para o mundo da linguagem, capaz de instaurar um discreto processo terapêutico.

Pensar em direitos humanos é reconhecer que aquilo que consideramos indispensável para nós assim também o é para o outro, é pensarmos nas urgências dos direitos do próximo também. Há uma fronteira entre bens compreensíveis e bens incompreensíveis que, muitas vezes, é difícil fixar. O valor de uma coisa depende em grande parte da necessidade relativa que temos dela.

Para o sociólogo Antônio Cândido (1988), bens incompreensíveis não são apenas os bens que asseguram a sobrevivência física em níveis decentes, como a alimentação, a moradia, o vestiário, mas são também os bens que garantem a integridade espiritual.  A arte e a literatura, quando correspondem às necessidades profundas do ser humano, entram nessa categoria de indispensabilidade. O sociólogo e crítico literário entende por humanização o processo que confirma aqueles traços reputados essenciais no homem, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante.

Não se pode viver sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. Desta forma, a literatura está relacionada com os direitos humanos em dois ângulos: A literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, já que dando forma aos sentimentos e à visão do mundo, ela nos organiza, nos liberta do caos, ou seja, nos humaniza. A literatura também pode ser um meio consciente de desmascaramento, na medida em que focaliza as situações de restrição dos direitos, como a miséria ou a mutilação espiritual.

A teoria lacaniana promove um retorno a Freud, operando com o inconsciente, no qual o sujeito é alienado. Através dela, o inconsciente passa a ser analisado como algo indissociável da linguagem. Procurando dar um caráter científico à psicanálise, Lacan afirma que a estrutura do sujeito é constituída a partir dos efeitos de uma estrutura aberta, referenciada à linguagem e aos efeitos significantes. Sua concepção é que este inconsciente se estrutura como linguagem. Logo, o que ele propõe é a psicanálise como uma experiência da palavra plena, já que o inconsciente se estrutura na fala.

Pela psicanálise descobrimos violência. O leitor pode se para a atividade psíquica. A literatura é transmitida a que o peso das palavras ou o peso do nosso silêncio pode determinar nossas vidas. Quanto mais formos capazes de nomear o que vivemos, mais somos aptos para transformar a nossa realidade. A dificuldade de simbolizar, de encontrar palavras para pensar sobre si mesmo e expressar angústias, pode leva o corpo a falar, seja com sintomas físicos de dor, seja com enfrentamentos de proteger de suas inevitáveis desilusões por meio das fábulas.

Assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura, fator indispensável de humanização, já que atua na parte subconsciente e no inconsciente humano. A atividade da leitura, assim como a arte, tem uma contribuição significativa criança para alimentar seu pensamento, iniciando-a na língua da narrativa, a fim de permitir que o enfrentamento das grandes questões humanas. Espontaneamente, a palavra brota e, através da leitura, o aluno faz associações que relembram sua própria vida. Retomando uma atividade de simbolização, o leitor constrói sentido para o que lê, movimentando seus pensamentos.

A SIMBOLIZAÇÃO COMO INSTRUMENTO DE VOZ

Os escritores nos ajudam a nomear as coisas pelas quais passamos, nos ajudando a acalma-las dentro de nós. Tocando o mais profundo da experiência humana ao falar de dores, de amor ou buscando um sentido para algo, o escritor também toca em cada um de nós. Ao encontrar palavras que perturbam, conseguimos expressar o que temos de algo mais íntimo.

Para a pesquisadora Michèle Petit (2009), um livro pode ser uma voz humana, uma presença viva. Mesmo sozinhos, quando lemos, o interior de nós mesmos estaria ocupado. Em contextos de crise, de guerras ou violências, as pessoas poderiam redescobrir o papel da leitura na reconstrução de si mesmos.

O desejo de ler surge por meio desta intersubjetividade gratificante, essa transição entre corpo e psiquismo, entre passado e presente, inconsciente e consciente. Desviando-nos através do outro, é que elaboramos as partes escondidas de nós mesmos. É no relacionamento entre culturas diferentes, que alargamos nosso espaço interior.

Mesmo se leio sozinha no meu quarto, quando viro as páginas, quando levanto os olhos do livro, outros estão ali do meu lado: o autor, os personagens cujas vidas ele narra ou aqueles que ele criou, se se tratar de uma ficção (e talvez aqueles que o inspiraram), os outros leitores do livro, de ontem e de amanhã, os amigos que dele me falaram ou a quem imagino que eu possa recomendar. Mas também os que constituíram a minha vida ou que a compartilharam hoje, cujos rostos, brincadeiras, traições ou generosidade estão prontos para aparecer nas entrelinhas. Sozinha, sou muito povoada dentro de mim mesma.” (PETIT, 2009, p. 139)

Através da linguagem, organizamos um universo simbólico que nos abre para outros deslocamentos. O desejo de ler surge por meio desta intersubjetividade gratificante, essa transição entre corpo e psiquismo, entre passado e presente, inconsciente e consciente. O gosto pela leitura deriva muito de intersubjetividades, de um olhar que é depositado sobre pensamentos alheios, permitindo o reconhecimento do outro. A partir destes ajustes, dessas associações suscitadas, destes diálogos psíquicos, a criança pode estabelecer uma relação afetiva com os livros. Quando um adulto se apropria dos livros, ele reencontra o eco remoto de uma voz que lhe ajudou a enfrentar sua infância. Sendo muitas vezes uma arte que se transmite no seio da família, podemos dizer que o seu gosto e sua prática são socialmente construídos.

A leitura convida ao processo de simbolização, a uma forma de se narrar a própria história entre as linhas que se lê, costurando o que se vive de forma fragmentada. Conforme a pesquisadora Michèle Petit, há uma maioria de leitores que rejeita a leitura de obras que não permitem um distanciamento da realidade, um exílio. Os textos que fazem referência explícita a situação real do leitor, não são os mais escolhidos por este. Há uma busca por leituras metafóricas. As histórias que refletem a imagem de pessoas semelhantes ao leitor podem não o levar a sair de sua mesmice, e com isso ele não se sente situado.

Muitas vezes, este desvio de lugar ou tempo é o que abre possibilidade de simbolização. Esta não nasce com a linguagem, mas pode nascer com metáforas. Uma história pode muito rapidamente se tornar parte de si e evocar a própria história do leitor, enquanto cria uma distância protetora. Um espelho pode permitir o reflexo, mas não nos leva a representação. Já a metáfora, proporcionada pela leitura, pode transformar os traumas em representações criativas. Ela pode dar sentido a uma tragédia, transformar experiências dolorosas e elaborar perdas.

Os valores da sociedade estão presentes nas manifestações literárias. São estas manifestações que nos fornecem a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas, e este momento de denúncia e de combate é que caracteriza a indispensabilidade da literatura.

Além de ser um instrumento de voz, a literatura auxilia o homem na sua própria construção de identidade. Não se trata de uma experiência inofensiva, mas de uma aventura que pode perturbar, causar problemas morais e psíquicos ao formar a personalidade além das convenções. Por isso, a concepção ingênua da leitura tem como consequência uma prática de valores que não contribuem para a democratização do poder.

A ESCOLA NA MEDIAÇÃO DE LEITURA

Sendo a cidadania um dos alvos principais a serem construídos pela educação, o espaço escolar deve ter a leitura como instrumento não somente de apropriação de língua e de acesso ao conhecimento, mas principalmente como objeto de reflexão e extensão de horizonte. Quanto mais o sujeito for consciente de que sua leitura é um ato de posicionamento político diante das coisas, mas sua leitura será independente. Embora muito se mascare o reconhecimento dos interesses ideológicos dos autores, este o componente político continua sendo constitutivo do processo.

Na escola, o livro pode gerar conflitos porque o seu efeito transcende as normas estabelecidas. A sala de leitura deve fazer um trabalho de apropriação, reinterpretação e elaboração estética, operado a partir das histórias lidas. É durante a leitura que as emoções e os pensamentos se conciliam e o mais peculiar de cada um é compartilhado.

O professor como mediador de leitura deve orientar aos alunos em que se baseou para formular suas próprias previsões, mostrando a série de indicadores que se encontram no texto e que podem ser usados pelo leitor de forma produtiva para uma boa compreensão. Pontes conceituais podem ser estabelecidas entre o que o conhecimento prévio do leitor e o que deseja que ele compreenda. Embora este seja um processo de estabelecimento de pontes seja interno, desenvolvido em uma leitura individual, nada impede que seja um processo ensinado, no qual o professor orienta os alunos mostrando os aspectos fundamentais encontrados no texto e que podem ser relacionados aos conhecimentos prévios.

O professor deve mostrar aos alunos como ele verifica suas previsões, em que indicadores do texto ele se baseia. Contudo, esta orientação não é suficiente para o domínio das estratégias de leitura. É necessário que os alunos, além de assistir a esse processo, também exercitem essa compreensão, selecionando marcas textuais que os levem a formular suas próprias hipóteses e construir suas próprias interpretações.

Evidentemente, o educando pode aprender a ler melhor com as intervenções do professor, mas a leitura na escola deve possibilitar competência mediante atividades de leituras autônomas. Quando o aluno lê sozinho, seja por prazer ou para realizar alguma tarefa, ele impõe seu ritmo e trata o texto para seus fins, avaliando a funcionalidade das estratégias trabalhadas em leituras compartilhadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Michèle Petit (2008) acredita que a leitura pode ajudar os jovens a serem mais autônomos e não apenas objetos de discursos repressivos ou paternalistas. Todavia, estamos vivendo uma época de mutações tecnológicas e a consequência disso é a diminuição da prática da leitura. Com o progresso industrial, aumentamos o conforto enquanto, ao mesmo tempo, excluímos a grandes massas condenadas à miséria. Os mesmos meios que permitem o progresso podem provocar a degradação da maioria. Até mesmo a educação pode ser instrumento de convencimento de que o que é indispensável para uma camada social não o é para outra. A organização da sociedade pode restringir ou ampliar a fruição deste bem humanizador, que é a literatura.

Conforme Antônio Cândido (1988), para que a literatura chamada erudita deixe de ser privilégio de pequenos grupos, é preciso que a sociedade se organize de maneira a garantir uma distribuição equitativa dos bens, uma utopia num país como o  Brasil  onde a maioria da população vive em  condições que não permitem a margem de lazer indispensável à leitura. A luta pelos direitos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis da cultura. Distinguir a cultura popular da erudita não justifica sua separação, como se a sociedade fosse dividida em esferas incomunicáveis do ponto de vista cultural. Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todos os níveis e modalidades é um direito inalienável.

A cidadania ativa, ideal buscado nas práticas educativas, é algo que se constrói. Não se cai do céu. O homem se constrói de maneira singular e, com suas próprias armas, tenta criar um espaço em que encontre lugar. Neste sentido, a leitura deve ser pensada como instrumento que propicia não apenas a apropriação da língua e o acesso ao conhecimento, como também a reflexão, a construção de si mesmo, a extensão do horizonte de referência e a elaboração de um mundo próprio. Mais do que um instrumento de voz, a linguagem deve ser pensada como um atalho de construção de nós mesmos enquanto sujeitos falantes.

A vida é deslocamento, principalmente em dias atuais, quando mundo remodelado nos obriga a redefinir o lugar que nele ocupamos. Neste sentido, a literatura é importante porque além de colocar o leitor em contato com culturas diferentes, o ajuda a recriar o solo que foi perdido. Ao levá-lo à parte exilada de cada um, a leitura tenta agarrar o inacabado, superando espaços, abolindo fronteiras, reconstruindo o que já foi. O livro não somente dá morada aos exilados, como também pode ser a oportunidade de proporcionar um valor criativo ao exílio. Os livros roubam um tempo do mundo.