/O PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM E A TRAJETÓRIA DE VIDA DOS ALUNOS DA EJA

O PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM E A TRAJETÓRIA DE VIDA DOS ALUNOS DA EJA

A importância do diálogo entre as vivências dos alunos da Educação de Jovens e Adultos e o processo de ensino e aprendizagem se torna fundamental. É preciso dar sentido para que o interesse seja permanente. O papel do professor é dar significado às aulas, fazer com que os alunos se sintam incluídos. Entender o universo de cada indivíduo, lembrando que cada jovem ou adulto ali presente, possui trajetórias de vidas diferentes, já adquiriram experiências de acordo com o ambiente em que estão inseridos. O olhar do professor neste espaço, tão diverso, deve ser o mais sensível, pois o profissional vai se deparar com realidades que não são as suas, para adentrar este mundo, proporcionando um ensino e aprendizagem que seja de fato significativo.

INTRODUÇÃO

Este artigo pretende apresentar a importância da relação professor-aluno dentro da Educação de Jovens e Adultos. Por ser um tema de grande importância, já foi trabalhado por vários outros autores, e por isso mesmo deve ser sempre resgatado, uma vez que, observa-se grande número de alunos com receio de retornar ou ingressar na vida escolar.

Algumas questões precisam ser levadas em consideração quando se trata da Eja: A trajetória dos alunos da Educação de Jovens e Adultos deve ser levada em consideração dentro da prática pedagógica do professor? Como o professor deve atender os jovens e adultos utilizando o contexto em que vivem para dar significado às suas aulas?

Tem como objetivo revisitar temas já estudados por outros autores, mostrando a importância do professor em dar significado às suas aulas, para que esses indivíduos se identifiquem, se incluam, se sintam pertencentes àquela comunidade, que é a escolar. Através de pesquisas, observar que, a união entre o conhecimento prévio do aluno e a sensibilidade do educador são requisitos necessários para uma plena socialização, aprendizagem, interação. São, portanto, itens indivisíveis.

Mostrar que é preciso atender as necessidades educacionais, das quais os alunos da EJA foram privados em determinado momentos, por motivos diversos, fazendo com que não haja evasão escolar, e sim, motivação para a permanência e conclusão dessa etapa educacional, é um dos principais papéis do profissional da EJA.

O trabalho aqui apresentado trata-se de tema importante do ponto de vista acadêmico, pois fará uma releitura de textos já estudados. Tem relevância social, porque vai explorar a relação entre o processo de ensino e aprendizagem e a vivência dos alunos da EJA.

O PROCESSO DE ENSINO D APRENDIZAGEM E A TRAJETÓRIA DE VIDA DOS ALUNOS DA EJA

Sabe-se que a maior parte dos alunos da Educação de Jovens e Adultos possuem muitos desafios, a partir do momento que decidem retornar ou iniciar sua jornada na vida escolar. Desafios que existem porque, em cada vida há uma história, que pretende ser transformada e que se quer alcançar, de alguma forma, aquilo que ficou pra trás, no tempo, e agora tem a intenção de se concretizar, tornar real.

O saber, o conhecimento erudito, seja para encontrar um emprego ou melhorar sua posição de trabalho, entender o filho ou neto quando possuem dúvidas em relação aos conteúdo da escola, seja para ler suas próprias correspondências, seus cartões de Natal ou aniversário e até mesmo o itinerário do ônibus. São coisas que, para muitos, não significam grandes obstáculos, mas para estes indivíduos são uma das etapas mais gratificantes de suas existências.

Sair da marginalidade em que se encontram e adentrar no mundo das letras, dos números, do entendimento da sua história, pois não se reconhecem até então como sujeitos da história. Socializar e argumentar de forma crítica sobre o ambiente que os cerca, compreendendo o seu lugar e seu papel no mundo, como transformá-lo, para si e para o outro.

São barreiras  que serão transpostas com o auxílio do professor, cujo papel é fundamental, pois cabe a esse profissional a apresentação e inclusão desses jovens e adultos neste universo tão diferente, mas tão excitante. E o educador deve ser sensível para atar os dois paralelos: o do ensino e aprendizagem e a vida de cada educando. A ele cabe fazer com que esses paralelos se encontrem, se absorvam e se expandam.

De acordo com Silva, Ferreira e Lopes:

“O contato social é importante entre os alunos que formam um grupo de pessoas que não se envergonham diante uns aos outros, pois o mundo letrado é preconceituoso com quem não atende as suas exigências, não se enquadra nos seus padrões.” (2011, p.15)

Os alunos da Educação de Jovens e Adultos possuem expectativas  em  relação a sua aprendizagem. Mais do que o saber letrado, eles desejam autonomia, inclusão, socialização, bens culturais, ou seja, tudo que os tirem da situação marginal em que se encontram.

O cenário mundial em que estamos inseridos tem feito com que, cada vez mais, os indivíduos vão à busca de uma identidade. Há uma necessidade de se sentir pertencente ao ambiente em que se está inserido, e isso faz com que o ser humano se direcione a essa apropriação. Dentro do ambiente escolar, que também é cultural, essa busca não desaparece. Ela é latente ao homem, e por isso mesmo, conhecer o mundo do educando da EJA faz toda a diferença, pois a troca de aprendizagens – professor e aluno – é cada vez mais importante e decisiva no processo de ensino e aprendizagem.

“vivemos numa sociedade globalizada, altamente tecnológica que aponta para sucessivas mudanças e para a construção de um novo tempo que, por sua vez, exige a construção de novos paradigmas educacionais.” (FEITOSA,1999, p.17)

Dessa forma o professor, precisa perceber como fazer de suas práticas pedagógicas algo que tenha representatividade na vida dos alunos e no seu meio ambiente. Não é possível deixar de lado as experiências que os educandos carregam, e como isso pode auxiliar o professor em seu trabalho. A educação deve ser repensada, reciclada, de acordo com a rapidez em que o mundo se renova.

O profissional da educação, ao optar pela EJA, precisa ter a consciência de que os seus alunos esperam conquistar espaços que muitas vezes lhes foram negados pela falta de escolarização, da construção dos saberes eruditos.

Porém, essa educação não se constitui de forma mecânica, sistemática, uma vez que esses alunos têm “sede” de adentrar nesse mundo do letramento. Eles querem ter consciência crítica do que acontece a sua volta e já forma moldados pelas experiências de vida que possuem.

Então o que se espera dessas aulas? Convém analisar o artigo de Oliveira:

“Educar não pode se limitar apenas a uma proposta assistencialista, como se tem verificado ultimamente no Brasil, é acima de tudo um desafio social, é um caminho de luta, de transformação na busca da justiça e da felicidade.”

Dessa forma, percebe-se que o profissional não vai construir um saber, ele vai reconstruir um saber a partir das vivências dos seus educandos, se atentando para as perspectivas dos mesmos. Não é possível ignorar os sonhos, as aspirações que os levaram as salas de aula. Historicamente,

observa-se a luta para que todas as pessoas tivessem acesso a uma educação de qualidade, e o que se vê atualmente, apesar de tantos esforços é que o índice de analfabetismo ainda persiste. De acordo com o censo de 2010, cerca de 9% da população brasileira não sabia ler e escrever. E sabe-se que o censo não consegue atingir todos os brasileiros. Se a educação inclui, a falta dela é motivo de exclusão. A sociedade, para ser justa precisa ser inclusiva, e o papel da escola é inserir aqueles que foram colocados, por diversos motivos, para fora do mundo educacional. Embora, este trabalho, tenha como elemento principal a relação professor-aluno, faz- se necessário incluir todos os funcionários da escola, como agentes transformadores, para que haja um bom desenvolvimento desses indivíduos em sua trajetória escolar.

O processo educacional na EJA precisa ser pensado como um instrumento de libertação, pois os alunos que ali se apresentam já se encontram presos em condições socioeconômicas que os marginalizam, que os inferiorizam. De acordo com Paulo Freire (2002) apud Oliveira (2008):

“Deve haver uma relação de interação entre professores- alunos que deve estar pautada em um ato de conhecimento de que o processo de alfabetização de adultos necessita de uma relação de diálogo que seja fidedigno onde os sujeitos do ato de conhecer (educador- educando; educando-educador) se  encontram   movidos   pelo objeto a ser conhecido. ” (s.p.)

Isso requer todo o cuidado em estabelecer um contato saudável, onde o aluno sinta que da mesma forma que ele aprende com o professor, o professor também aprende com ele, com suas experiências. Há uma troca de saberes fazendo com que o aluno que ali está é mais do que um receptor, ele também se torna um transmissor a partir de sua história de vida. E desse modo, todos aprendem uns com os outros, fazendo das aulas um aprendizado de vida.

A metodologia

A troca de experiências entre professor e aluno é oprimir, minimizando as desigualdades sociais e utilizada pelo educador precisa ser elaborada a partir do conhecimento prévio de seus alunos e não apenas de acordo com os materiais que lhe são dados pela escola. O planejamento escolar para essa turma deve ser totalmente diferenciado dos trabalhados na seriação da escola regular. Freire (1995) apud Oliveira (2008):

“A alfabetização e a educação de jovens e adultos deveriam partir continuamente de uma análise crítica da realidade existencial dos educandos, da identificação das suas raízes e de toda a problematização que vivem de maneira a superá-los.” (s.p.)

Se ao optar pela EJA, o professor manter a mente aberta para todas as possibilidades que essa modalidade de ensino permite, ele conseguirá enxergar de fato seu aluno. Ele será capaz de transformar a realidade dele e dessa forma modificar a sua própria realidade.

Uma mola propulsora para que os educandos sejam estimulados, sejam motivados e persistam em direção à meta que os mesmos traçaram. E para o educador é um meio de buscar novas técnicas de ensino, novos caminhos, novos aprendizados.

Atualmente, sabe-se que o professor, em qualquer modalidade de ensino, já não é mais o protagonista na sala de aula, e na EJA, isso precisa ser mais evidente, pois através do “ouvir”, muito mais do que do “falar”, que as aulas acontecerão de forma mais significativa.

Cabe ressaltar e é de extrema importância a metodologia freireana, pois sem a mesma não haveria razão deste trabalho existir, pois foi Paulo Freire que indicou o caminho para uma educação libertadora, uma educação que abraçasse a todos e não apenas às elites. Educação esta, que deixaria de domesticar e econômicas tão evidentes em nossa sociedade.

Pode-se refletir nas palavras de Feitosa:

“O educador sensível à problemática da exclusão agravada pelo analfabetismo, procura na reflexão e análise da metodologia freireana, bem como na filosofia que a sustenta, respostas às inúmeras inquietações e conflitos que permeiam o ato educativo…”(1999, p.17)

Dessa forma, a vivência dos alunos, que se ausentaram da escola por motivos que não cabe a quaisquer uns julgar, deve ser ouvida, analisada, compreendida e a partir de então, de forma clara e objetiva elaborar um plano de aula que contemple essas trajetórias, que muito auxiliarão os profissionais da educação.

O jovem ou adulto, ao adentrar o ambiente escolar, precisa se sentir seguro, pois suas trajetórias de vida, muitas vezes, os tornaram reféns de situações de discriminação.

Para que situações que marginalizem esses sujeitos não se repitam, o profissional deve acolhê-los, ouvi-los, demonstrar estar presente e atentos para suas vivências, utilizando-as em sala de aula para que o momento do ensino e aprendizagem sejam significativos para os alunos.

“À medida que o educador vai relacionando os saberes trazidos pelos educandos com os saberes escolares, o educando vai aumentando sua autoestima, participando mais ativamente do processo. Com isso melhora também a sua participação na sociedade, pois assume um maior protagonismo agindo como sujeito no processo de transformação social.” (FEITOSA, 1999, p.43)

Utilizando a metodologia freireana, o caminho se torna mais prazeroso, pois Paulo Freire mostra a necessidade de libertar, de incluir, de acolher de forma a tornar o ensino uma forma de troca, onde quem ensina também aprende e quem aprende também colabora com suas experiências de vida.

Estar aberto ao novo é um método de transformar realidades, a sua e a do outro. Para isso é necessário ser um agregador, ao mesmo tempo em que agrega conhecimentos. Entender que não existe o saber inteiro, entender que ele o saber é fragmentado e está inserido em qualquer cultura, porque o saber vai além da sala de aula e do professor. Compreender que todo ser humano é capaz de transmitir conhecimento.

Desafiar o educando fará com que ele saia do papel de receptor apenas, pois não é isso que a escola deve se propor. O papel da escola é ir além, quebrar os muros que separam os saberes, apresentando aos alunos novas possibilidades de interagir na sociedade em que vivem.

Ao professor, cabe o papel de sair do posto que por tradição lhe deram, que é o de detentor do saber, aquele que possui todo o conhecimento e entrar no campo de mediador, visto que a ele cabe a orientação sobre o que será ministrado em aula, sem anular o que o aluno traz em sua bagagem de vida.

Diz-nos Freire (2000) apud Oliveira (2008):

“O futuro não nos faz por si só, somos nós que nos recompomos na cota para fazê-lo, e diante desse exposto, como atenuar a extensão entre o contexto acadêmico e a realidade de que chegam os alunos, realidade que necessitamos aceitar cada vez melhor, na proporção que nos comprometemos com um processo que possa, de certa forma, mudá-la.! (s.p.)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho, ora apresentado, teve como objetivo, mostrar que a união entre o conhecimento intelectual adquirido pelo professor em sua carreira acadêmica e a experiência de vida dos alunos da EJA, são essenciais para que haja um real aprendizado.

Quando o aluno se sente integrado com a escola, essa deixa de ser vista como algo inatingível e passa a ser considerada como fator agregador, acolhedor, onde a vontade de ultrapassar barreiras do desconhecido são maiores que o medo de não ser aceito, de ser ignorado, de ser humilhado.

Desenvolver uma metodologia capaz de abranger aquilo que o currículo pede, e unir a esse currículo, a trajetória de vida dos alunos como base para seu planejamento trará mais sentido para esses educandos. A metodologia de Freire aponta caminhos onde o objetivo é libertar e não doutrinar os sujeitos envolvidos nesse processo.

Se sentir pertencente ao ambiente escolar, se apropriar dessa cultura e depositar nela suas vivências é um modo de transformar o local onde se vive.

Dessa maneira, este artigo conseguiu apresentar de forma clara, que só é possível atingir uma aprendizagem de fato, dentro da Educação de Jovens e Adultos, quando o profissional olha “através” dos indivíduos e desenvolve nestes, suas habilidades e competências de forma crítica, libertadora e eficaz.

REFERÊNCIAS

FEITOSA, Sonia Couto Souza. Método Paulo Freire – Princípios e práticas de uma concepção popular de educação. São Paulo. Universidade de São Paulo, 1999.

FERREIRA, Shirley Lopes. Ferreira, Daniela Maria. Silva, Shirley Angela. A expectativa dos alunos da EJA com relação à educação para o trabalho. Recife. Universidade Federal do Pernambuco, 2011.

OLIVEIRA. Michele Pereira. EJA uma perspectiva educacional sobre jovens e adultos. Disponível em: http://educacaoeinclusao.blogspot.com.br/2008/11/eja-uma-perspectiva- educacional-sobre.html. Acessado em 24/02/2017.

RIBEIRO. Jaciara Batista. As estratégias de aprendizagem na Educação de Jovens e Adultos. Pouso Alegre. Universidade do Vale do Sapucaí, 2014.

POR: CAMILA ZEFERINO DE SOUSA