O REFLEXO DA GESTÃO ESCOLAR NA QUALIDADE DO ENSINO

O REFLEXO DA GESTÃO ESCOLAR NA QUALIDADE DO ENSINO

A estrutura organizacional escolar, pelo   fato   de ser demasiadamente burocrática tem se mostrado desarticulada do processo pedagógico e ineficiente face as questões administrativas. A prática dos diretores tem legitimado essa estrutura organizacional burocrática, não tendo contribuído para a melhoria de qualidade nos aspectos pedagógicos.

O caráter burocrático da escola afeta profundamente   sua administração. Aliás, há na escola uma grande desarticulação entre o universo pedagógico e o universo   administrativo, o que causa prejuízo ao processo educacional.

Uma administração burocrática está sujeita à hierarquia, regulamentos rígidos e rotina inflexível. O autor Rezende (1987) alerta que o problema de uma administração burocrática é que a burocracia fortalece a centralização do poder e que as decisões mais importantes ficam somente nas mãos de uma ou de pouquíssimas pessoas, sendo que os funcionários não possuindo  autonomia, não possuem também responsabilidade e autoridade, e ao comparar a escola com a empresa, constata-se que ela se distancia da mesma ao não se utilizar dos progressos gerenciais desenvolvidos por esta para se modernizar.

Segundo Senge (1990), o autor diz que de acordo com suas observações as inovações administrativas só  funcionam  de   fato  em    organizações empresariais e atualmente é extremamente relevante que a educação esteja inserida na era da administração moderna, porém, ao se fazer uma primeira e superficial análise do comportamento da administração escolar, pode-se constatar que os gestores do ensino em geral, mesmo em instituições que ministram cursos de “administração”, parecem não fazer uso das ferramentas já aplicadas e testadas pela empresa em seu processo de gestão empresarial.

 A administração das Instituições de Ensino Superior (IES), a exemplo, mostra-se aquém daquilo que poderia ser, em eficiência e qualidade.

A organização e a gestão escolar são os meios com os quais a escola busca atingir seu objetivo genuíno que é o processo de ensino e aprendizagem. Mas, mesmo não sendo uma atividade final, a administração é de suma importância para que o objetivo maior da escola possa ser atingido. As tarefas da administração escolar compreendem os atos de gerir, organizar, dirigir, tomar decisões, entre outras, e são semelhantes às tarefas da             administração empresarial, mas apesar disso, não são iguais, instituição empresarial é uma; e instituição educacional é outra.

A DIFERENCIAÇÃO DOS TERMOS: “GESTÃO E ADMINISTRAÇÃO”

No presente artigo, o termo “Gestão” discutido neste trabalho é   sempre    comparado à Administração, mas cada um deles tem suas particularidades e especificações. Para isso é necessário distingui-los como:

Os termos gestão e administração parecem semelhantes, mas não são sinônimos. “Administrar, administração estão ligados ao ato de dirigir e Gestão foca na valorização do capital humano”.

Os conceitos de gestão e administração fazem parte do vocabulário do universo corporativo e apesar de parecerem semelhantes, cada um possui sua particularidade. O termo administração já foi fortemente empregado, mas atualmente, está cedendo espaço para o termo gestão. As duas palavras têm   origem no latim, entretanto, antes de expor suas diferenças, vamos levar em conta quais são suas semelhanças. Os dois termos se referem à necessidade de influenciar terceiros, ou seja, os responsáveis por gerir ou administrar a empresa ou determinada área   de    trabalho, deve exercer os dois conceitos em relação ao funcionário, pois terá subsídios para coordená-lo e orientá-lo. Mas, qual é mesmo é a diferença entre administração e gestão?

Administrar significa planejar algo, controlar e dirigir os recursos humanos, materiais e financeiros. Em sua concepção, o    termo é voltado para o lado técnico, com foco no processo administrativo. Segundo Jules Henri Fayol, fundador da Teoria Clássica da Administração, o administrador é responsável por conduzir a empresa, levando em consideração alcançar os objetivos da organização, buscando extrair todas as vantagens possíveis. Sendo assim, a administração é racional e visa atingir as metas e os propósitos da empresa.

 Já a gestão tem como princípios fundamentais incentivar a participação, estimular a autonomia e a responsabilidade dos funcionários. Em sua concepção, ela tem como foco a questão gerencial, cujo processo é voltado para o político- administrativo. Sendo assim, gerir é atingir os objetivos da companhia de maneira eficaz ao valorizar o conhecimento e as habilidades das pessoas que trabalham dentro da   empresa. O gestor deve ter a capacidade de manter a sinergia entre o grupo, a estrutura e os recursos já existentes.

Portanto, o gestor na contemporaneidade deve ir mais além e compreender a parte técnica e a administrativa, no que diz respeito ao planejamento e aos rumos da organização, e além disso, é importante saber que para a gestão ser eficiente, é de suma importância conhecer e se inteirar de tudo que se relacione aos processos, entender como está o mercado em que atua em relação aos clientes e aos concorrentes.

GESTÃO EMPRESARIAL E ESCOLAR – DIFERENÇAS E SEMELHANÇAS

Segundo os autores Félix (1984), Mariotti (1996), Chiavenato (1999) e Ferreira (2004), a gestão escolar está relacionada com o modo como a escola se organiza, isto é, com as relações que se estabelecem entre a equipe pedagógica e a equipe administrativa. Já na gestão empresarial, o serviço empregado é o de produção e troca visando atender os interesses humanos.   A     gestão da escola, no entanto, tem os seus princípios fundamentados na gestão empresarial, do que decorrem algumas das semelhanças existentes, como as   adequações da gestão escolar às condições sociais, visando a atingir os objetivos determinados   pela sociedade, e a necessidade de assimilar métodos e técnicas de administração que garantam a eficiência do sistema. Vale ressaltar que ambas as formas exercem uma função social:  a    empresarial, de maneira geral, volta- se para a produção; e a escolar, atua junto à preparação do indivíduo.

 Esses dois modos de gestão procuram desenvolver programas de melhorias, cada qual enfocando sua área: cuidam da aparência física e imagem de cada local e esclarecem a importância de atitudes reflexivas de respeito e cordialidade dentro e fora de cada ambiente.

GESTÃO EMPRESARIAL:

Gonçalves (1989) diz que nos últimos 150 anos a vida da humanidade tem girado em torno de uma estrutura, em que a maioria dos homens ditos civilizados passa a maior parte de seu tempo, as suas 24 horas diárias. Nessa estrutura o homem trabalha buscando, de um lado, a remuneração pela atividade desenvolvida, que lhe serve para o sustento pessoal e de sua família; mas busca, de outro lado, sua realização, enquanto pessoa, no trabalho que desenvolve, verdadeiro complemento de sua personalidade. Essa estrutura é a empresa. A empresa moderna reúne integrantes cujas responsabilidades são diferentes e hierarquizadas, mas aos quais o trabalho deve oferecer condições para cumprir de maneira sempre mais perfeita suas obrigações pessoais, familiares e sociais. Para isso é necessário que exista uma organização dos recursos básicos radicalmente diferente de tudo o que já se conheceu e nela os recursos humanos e materiais precisam ser concentrados, para se obter o melhor desempenho econômico e o melhor desempenho social.  Para o   teórico Peter Drucker (1981) a responsabilidade de uma boa administração é importante para a empresa e para seu administrador, sua posição passa a ser reconhecida e prestigiada. Na verdade, o administrador consegue fazer as coisas através das pessoas, razão pela qual elas ocupam posição primordial nos negócios de todas as organizações. As pessoas são geralmente chamadas de subordinados, funcionários, colaboradores, parceiros ou empreendedores internos.

GESTÃO ESCOLAR:

Os objetivos essenciais da gestão escolar são: planejar, organizar, dirigir e controlar os serviços necessários à educação. Esses princípios gerais estabelecidos por Fayol, junto à Teoria Clássica da Administração, poderão ser aplicados à gestão escolar, desde que sejam adaptados às condições específicas do trabalho educativo e ao aplica-los, não se deve esquecer que existe um abismo profundo e intransponível entre a atividade educativa e a produção industrial.

A escola atual tem a preocupação de conquistar o apoio da comunidade, considerando-o relevante para uma atuação eficaz. A imagem da escola tem um duplo efeito, ou seja, age tanto externa, quanto internamente. Se for positiva, a imagem da escola desperta boa vontade e desejo de cooperação na comunidade, tornando- se, assim, mais fácil o desenvolvimento de seu trabalho. Por outro lado, a própria escola também se beneficia de uma imagem favorável: alunos, professores e funcionários sentem maior satisfação por pertencerem    a uma  instituição   tida como modelar e, consequentemente, agem no sentido de preservar a imagem da escola, dessa forma, o  efeito   interno da imagem positiva da escola é a criação de um clima favorável ao bom desempenho de alunos e professores.

A participação da comunidade na administração da escola está, pelo menos teoricamente, garantida por meio do funcionamento do Conselho de Escola, cuja forma atual é resultado de uma luta política com o sentido de dotar a escola de autonomia para poder elaborar e executar seu projeto educativo. A comunicação da comunidade com a administração escolar ocorre entre pessoas com diferentes formações e habilidades, ou seja, entre agentes dotados de distintas competências para a construção de um plano coletivo e consensual de ação.

Na prática da gestão escolar infelizmente isso não ocorre, gerando assim a falta de qualidade no aprendizado.  A   escola na   maioria   das   vezes se comporta de forma burocrática e impessoal, como se fosse uma empresa de fato. Segundo Ferreira (2001), o universo da escola é parcialmente complexo e específico. O diálogo só pode ser verdadeiro e frutífero a partir de um esforço de aproximação onde todos tendem a perceber e conhecer o outro em seu próprio contexto e a partir de sua própria história, sendo necessário praticar constantemente o exercício da participação em todos os seus sentidos, sempre buscando o consenso entre todos os envolvidos. A gestão escolar tem como referência as teorias da gestão empresarial, os quais são utilizados como modelos de organização e administração.

A QUALIDADE DO ENSINO COMO RESULTADO DA GESTÃO ESCOLAR

Para os estudiosos e defensores da Qualidade Total, o CQT – Controle de Qualidade Total, parte do reconhecimento das necessidades das pessoas e estabelece padrões para o atendimento dessas necessidades, cujo objetivo é manter esses padrões e melhorá-los continuamente a partir de uma visão estratégica e com abordagem humanista.

Seu conteúdo se resume na “satisfação do cliente”. Endeusada por uns e execrada por outros, é uma técnica aplicada à administração que tem provado ter seus méritos, mas deve ser repensada em alguns pontos, sobretudo quando implantada em uma instituição de ensino.  Podemos observar que nos dias  de hoje  a  educação está em busca de um novo paradigma e este pode ser que seja o da Pedagogia da Qualidade, sendo que para Silva (1995), o que importa de fato é que essa qualidade não seja tratada sob os mesmos parâmetros da qualidade empresarial, pois o aluno não é cliente da escola, ele  apenas faz  parte  dela,  é  um ser humano dotado de diversas potencialidades e deseja simplesmente construir o seu saber e o seu futuro.

Qualidade, na verdade, é condição sine qua non em qualquer instituição, seja ela uma empresa ou uma escola. Muitas das estratégias usadas na implantação, controle e avaliação do CQT   encontram- se na organização e gestão das instituições de ensinos. O plano de desenvolvimento institucional, os projetos pedagógicos dos   diferentes   cursos e a própria avaliação institucional são muito semelhantes às estratégias aplicadas durante todo o processo do CQT das empresas, sendo que os termos de planejamento, missão e objetivos são comumente usados por ambos. Então, o que é criticado no CQT?

Todos os recursos aplicados à administração têm como objetivo principal aumentar a produtividade, diminuindo os custos de produção. Assim, o conhecimento, objetivo primeiro da educação, não pode ser medido ou tratado da mesma forma que se mede a produção de carros por exemplo.

O processo de construção do conhecimento não pode ser visto como um produto pronto e acabado a ser adquirido. O conhecimento não pode ser maquiado para ser vendido, como se faz com o produto. O produto da escola não é nem o serviço ao aluno, mas   o   conhecimento, e conhecimento não se torna mercadoria e não tem preço. O preço é dado ao serviço.

Quanto ao aluno, o mesmo se assemelha ao cliente na escola quando entra na secretaria, na tesouraria ou na biblioteca. Nesses setores, ele deve receber o mesmo tratamento que recebe o cliente em uma loja ou supermercado; o mesmo tratamento que qualquer consumidor recebe daquele que produz ou comercializa um produto ou presta um serviço. Porém, a sua relação com a instituição em seu espaço específico, na sala de aula, é diferente, porque se constrói na relação pedagógica entre professor e aluno, construindo e produzindo conhecimento, em um constante vir a ser.

O aluno não é cliente para o professor, é coparticipante do processo educacional que, por sua vez, é conduzido pelo professor. A escola pode e deve buscar a excelência no processo educacional oferecendo condições adequadas para que a construção do conhecimento se concretize, investindo em infraestrutura, em laboratórios, em um bom plano de cargos e salários para o professor e o pessoal técnico- administrativo. Aliás, nenhuma   empresa trabalha sem   um plano de cargos e salários. É importante, também, que ela invista em avaliação (outra ferramenta da Qualidade Total   amplamente utilizada na empresa), avaliação interna e avaliação externa, pois é apoiado nos dados da avaliação que se pode aplicar estratégias administrativas e pedagógicas   que conduzam a instituição à excelência.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Uma forma de gestão complementa a outra (empresarial e escolar) voltando-se diretamente para a formação do processo de ensino e aprendizagem, da qualidade na educação.

Os reflexos da “Gestão Escolar”, a qual foi a mais enfatizada na presente pesquisa, são sempre vistos e apreciados pela sociedade de uma forma bastante positiva, apesar da mesma não conseguir se autogerir exatamente como o recomendado pelas teorias da administração existentes.

De forma conclusiva, é possível afirmar que as estratégias de gestão aplicadas à empresa podem e devem ser assumidas pelas instituições de ensino, desde que respeitadas às diferenças entre os fins e a natureza da produção de uma e outra instituição.

A qualidade é “algo que deve ser construído” a partir de um diagnóstico do estado atual, do planejamento do nível da qualidade que se pretende e de um projeto de programa de desenvolvimento e aprimoramento. Da mesma forma que ocorre na empresa deve ocorrer na escola, pois “Qualidade” é um objetivo estratégico. Entretanto, deve visar algumas diferenças para que haja de fato qualidade no processo educacional.

Assim, torna-se necessário que a escola se aproprie das ferramentas administrativas da empresa discutidas ao longo do presente trabalho, modernize seu processo gestionário otimizando suas ações, agilizando suas decisões, mas com criticidade e sem perder de vista as peculiaridades do desenvolvimento do processo pedagógico, lembrando sempre que as relações administrativas são meios e as relações pedagógicas são  fins  e  o administrativo está a serviço do pedagógico.

 POR: ANNA PAOLA NEVES